Sábado, 20 Julho 2024

​No meio-fio

Chegamos sãos e salvos ao meio do ano - junho apaga as luzes e sai de fininho. O meio do ano não ganha festa comemorativa mas abre alas e dá passagem aos meses mais nobres, honrados pelos grandes de Roma - Julho para Júlo César, agosto para Augusto - e nesta guerra de egos, o resto do ano ficou embaralhado, setembro que deveria ser o sétimo, é o nono, e por aí vamos. E nem podemos reclamar: na guerra do sol com a lagoa, quem sofre são os peixes. O meio justifica o fim, disse o dono da funerária, mas o fim justifica os meios, disse o politico calejado

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O meio, mesmo incompleto, tem suas peculiaridades. No meio da novela o autor perde a inspiração e fica naquela lengua-lengua, enchendo linguiça, como diz o vulgo. No meio do filme tem que acontecer alguma coisa para empurrar o enredo até o final feliz. Geralmente inventam uma festa de aniversário. No meio do caminho tinha uma pedra, disse o poeta mineiro. Sorte dele, porque nosoutros tropeçamos em muitas pedras na correria de todo dia. Mas tudo depende do tamanho dessas pedras.

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José amou Maria, mas a garota não se acostumou com salário mínimo e aluguéis atrasados, e pôs o cara pra correr. Pois não é que no meio do caminho, José tropeçou numa baita pedra? Diamante de 8 quilates, pureza absoluta, brilho intenso e inigualável. Voltou correndo pra Maria? Pois sim! No meio que ele agora frequenta tem muita mulher mais bonita e carinhosa. Não é bem um final feliz para uma história de amor, mas um meio de compensar o José pela destruição do meio ambiente: José era hortifruti, quer dizer, trabalhava na seção de verduras em um supermercado.

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O meio do ano é uma boa chance para renovar as intenções do começo do ano, já que nenhuma foi cumprida - Maria, sozinha e triste, prometeu fazer dieta, mudar de emprego e reduzir o tempo na Internet. De julho em diante, prometeu reduzir o tempo na Internet, mudar de emprego e fazer dieta. Definitivamente! O meio para chegar ao meio é mais curto do que o fim que não acaba mais - o meio do nada é lugar nenhum.

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Apesar de sermos cinco, sou a irmã do meio, embora não seja a terceira por ordem de chegada - mas éramos apenas três, e antes de chegarem mais dois, eu já estava tão acostumada a ser a do meio que não abri mão do honroso título - não deu mais para deixar de ser. A irmã do meio tem algumas regalias: não sendo a mais velha, não leva a culpa de tudo que sai errado, e não sendo a mais nova, já pode ir ao cinema sozinha. Se tem tarefa difícil pra fazer, mandam a mais velha - afinal, chegou primeiro. Na hora de dormir, a mais nova vai primeiro, com a novela ainda no meio.

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Existe toda uma literatura sobre as irmãs do meio - mas qual assunto ainda não foi dissecado pelos meios literários? No meio do bosque mora um anjo, no meio da rua tinha uma roseira, que dava flores na primavera. Rodei meio mundo e não te encontrei. Claro, eu estava no meio do nada. No meio do labirinto morava o minotauro, mas como saber onde fica esse meio, se o labirinto não tem começo nem fim? Um meio eficaz de não ouvir mentiras é nunca perguntar. Disse o filósofo cansado, o meio é um fim sem ponto final.

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O primeiro meio do ano passou; adeus, não te amo mais. O segundo meio do ano promete durar seis meses, espero que para todos. Nesses seis futuros meses, temos que achar um meio de passar o tempo, antes que o tempo passe, ou ficaremos no meio do mato e sem cachorro...De Machado de Assis, que voltou à moda: Crê em ti, mas nem sempre duvides dos outros. No tempo dele não havia fake news. Citar as ideias alheias é um meio de dizer adeus, até a próxima!

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