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Noiva, mas não casa

Dia desses, o próprio governador Paulo Hartung (PMDB) admitiu que a Constituição deveria ter proibido, há muito tempo, que um agente público exerça três mandatos executivos. Caso dele, aliás. Ele não revela, porém, que enfrenta a síndrome do terceiro mandato, com queda de popularidade é consequente desgaste de imagem. 
 
E convenhamos que Hartung se preparou para o revés iminente. Investiu pesado em uma boa assessoria, que construiu uma estratégia para fora do Estado. Desde o primeiro dia de mandato, Hartung trabalhou para se notabilizar como o governador que não dá o passo maior que a perna. Impôs cortes lineares em todas as áreas, criando as condições para uma política de ajuste fiscal severa. 
 
A ideia era mostrar para o resto do País que no Espírito Santo havia um governador responsável com as contas públicas, que estava enfrentando e vencendo a crise. Para justificar os cortes nos investimentos, a paralisação das obras e negar reajustes salariais aos servidores, o governador sugeria que os capixabas olhassem para o exemplo do Rio de Janeiro. 
 
Precisando se apegar a um exemplo palpável para justificar sua política de austeridade, o governador passou a tripudiar do vizinho, com a ameaça na ponta da língua: “Vocês estão vendo o que estão acontecendo com o Rio?” 
 
O bom trabalho da assessoria rapidamente fez Hartung cair nas graças de seleto grupo de economistas com influência no mercado. Em pouco tempo, Hartung tornou-se “queridinho” dessa turma, que passou a recomendar que os outros governadores se espelhassem no exemplo do colega capixaba. O trabalho de assessoria foi tão eficiente que Paulo Hartung passou a ser lembrado em quase todas as especulações da grande imprensa quando a pauta era sucessão presidencial. 
 
No início de 2016, quando Temer começava a definir os nomes de sua equipe de governo, Hartung foi cotado para assumir a Fazenda. Trazia no currículo a recém implantada política de ajuste fiscal capixaba. Hartung acabou sendo preterido, mas viu sua titular da Fazenda, Ana Paula Vescovi, assumir o Tesouro Nacional. De alguma maneira, se sentiu coroado com a nomeação da economista. 
 
O episódio lustrou a imagem de Hartung, que passou a ser ouvido com frequencia pela mídia nacional em pautas relacionadas à economia. Virou figura carimbada no Valor — umas das publicações mais conceituadas em economia do País. 
 
Este ano, com a proximidade do período eleitoral, Hartung passou a se movimentar de maneira mais propositiva na cena nacional, especialmente quando as pautas especulam nomes para a sucessão de Temer. Já foi cotado para vice numa eventual chapa a presidente do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, que o incluiu, não se sabe por que cargas d’água, ao lado de José Bonifácio e Getúlio Vargas, fechando a lista dos três homens públicos que mais admirava. 
 
A possível chapa não passou do oba-oba do noticiário. Quando o assunto foi perdendo força, a assessoria de Hartung usou estrategicamente a aproximação entre o governador capixaba e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que estava conduzindo a votação da denúncia contra Temer. Na ocasião, com o risco iminente de Temer cair, o nome de Maia ficou em evidência e Hartung “colou” no presidente da Câmara que, naquele momento em que Maia podia até assumir o comando do País.
 
Depois desse namoro com Maia, Hartung também flertou com João Doria (PSDB), ao intuir que o prefeito de São Paulo poderia tomar do governador Geraldo Alckmin a primazia de disputar a Presidência da República em 2018. O governador capixaba não parou em Doria, ainda investiu, recentemente, no ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSD). Nas conversas, Hartung quis deixar no ar que poderia ocupar a vice numa eventual chapa de Meirelles a presidente.
 
Sem contar que em meio às especulações para compor chapas presidências, Hartung explorou a ideia, no mínimo absurda, de ser cogitado para governar o Rio de Janeiro. A notícia plantada na coluna de Lauro Jardim (O Globo) forçou demais a barra, e acabou virando motivo de chacota nos meios políticos.
 
A notícia do momento põe Hartung agora numa nova chapa. Desta vez ao lado do apresentador de TV Luciano Huck. Na conversa dessa quinta-feira (9), mediada pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga — espécie de articulador da “nova” carreira política nacional de Hartung —, o global teria demonstrado interesse em trazer o governador capixaba para seu grupo político, talvez até como vice.
 
É preciso, porém, olhar com cautela para o copo. Pela visão “plantada” na mídia por Hartung, ele se coloca como um vice dos sonhos de qualquer candidato. Pensou em ser candidato? Chama o Hartung para vice. Daqui a pouco vão dizer que até Lula e Bolsonaro gostariam de ter Hartung como vice. Mas olhando o copo por outro viés, a situação do governador não é tão confortável como ele tenta transmitir. Hartung enfrenta o desgaste do terceiro mandato e sabe que um quarto mandato seria praticamente um suicídio político. Correria o risco de jogar fora seus três mandatos e encerrar a carreira política de maneira melancólica. Ao contrário do que a imprensa pinta, Hartung não tem boas perspectivas para 2018. O plano A, que seria o Senado, parece cada vez mais distante. 
 
Todo esse clima efusivo em torno da “noiva” mais desejada do momento tem mais a ver com o empenho da assessoria de Hartung, que continua conquistando generosos espaços na mídia e trabalhando com perfeição a imagem do ilustre cliente. Mas tirando o glamour da embalagem construída, Hartung está mais para aquela noiva angustiada, prostrada no altar com olhar fixo na porta da igreja se perguntando: por que o noivo ainda não chegou?

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