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Nos embalos de Jones Manoel

Visita do influenciador comunista alimenta sonhos da esquerda capixaba

Julya Maria

Um homem entra em um auditório “escoltado” por apoiadores que fazem um cordão humano de isolamento improvisado em torno dele. Enquanto passa, é ovacionado pela multidão que o aguarda com ansiedade. Essa poderia ser a descrição da chegada de um popstar qualquer a um encontro com fãs, mas estamos falando da passagem do influenciador digital comunista Jones Manoel pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde fez duas palestras na semana passada.

Ao primeiro debate, com o tema “Imperialismo, Dependência e Soberania Nacional”, compareceram cerca de 1 mil pessoas, mas apenas umas 300 conseguiram entrar no auditório do Centro de Educação Física (CEFD). As outras 700 assistiram pelo telão montado do lado de fora. O segundo encontro, sobre “Os desafios da esquerda socialista-comunista nas eleições de 2026”, foi deslocado para um auditório maior, o do Centro de Ciências Exatas (CCE), ao qual compareceram mais umas 1 mil pessoas, segundo a organização.

Infelizmente, não pude acompanhar nada presencialmente, e Jones acabou desmarcando a entrevista online que faria comigo. Peço desculpas, portanto, se o texto deixar de falar sobre detalhes importantes dos eventos em si. De qualquer forma, deu para ter uma boa ideia do clima por meio das redes sociais. O próprio influenciador parece ter ficado impressionado. Já de volta à sua cidade, Recife (PE), ele postou um vídeo lembrando que, quando esteve em Vitória há alguns anos, suas atividades reuniram públicos na casa das centenas de pessoas, o que já era muito. Agora, promete voltar para colocar mais de 4 mil pessoas na Praça do Papa.

E a esquerda capixaba parece mesmo apostar no empurrão do influenciador pernambucano para sair das cordas. Junho de 2013 foi, talvez, o último momento histórico em que o campo progressista liderou manifestações de massa no Estado. Depois disso, as assombrações reacionárias tomaram as ruas. Os movimentos sociais continuaram atuando, claro, mas de forma mais localizada. Um ensaio de retomada ocorreu apenas no ano passado, com os protestos contra a anistia aos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Para quem está longe da órbita do “webcomunismo”, aqui vai um breve resumo: Jones Manoel é um historiador marxista criado na favela da Borborema, em Recife, que ganhou fama a partir de suas publicações nas redes sociais, sobretudo os vídeos no YouTube. Seu trabalho recebeu um impulso extra após uma entrevista concedida a Caetano Veloso, em 2020, para a Mídia Ninja. Atualmente, articula uma candidatura a deputado federal pelo Psol, já que o seu Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) não tem registro formal.

O sucesso de Jones Manoel se deve a uma combinação incomum de formação intelectual muito acima da média, ainda mais para alguém que está na casa dos 30 e poucos anos; estratégias de comunicação digital bem planejadas; e uma disposição quase infinita para publicar vídeos diariamente, participar de mobilizações sociais em vários lugares do Brasil, escrever livros em profusão e confrontar adversários em debates virais e publicações de “react”. Há também fatores identitários que o conecta a jovens que, como ele, que cresceram na periferia de uma grande cidade ouvindo rap e se tornaram os primeiros da família a fazer um curso superior.

Isso, claro, no plano formal. Do ponto de vista do conteúdo, sua defesa apaixonada da “revolução brasileira” destoa do progressismo lulista difuso, que tem tido dificuldades de encantar os mais jovens. Jones, é bom destacar, não é o único: faz parte de uma nova cena de influenciadores – seja mais alinhados à “esquerda radical”, como ele, ou mais próximos de outras vertentes progressistas – que tem se destacado nos últimos anos, e que ganhou maior impulso a partir da pandemia de Covid-19. Ele é apenas o mais midiático.

É curioso destacar a diferença de atitude dos influenciadores de hoje em relação a ativistas que estiveram na linha de frente das Jornadas de Junho de 2013 e de manifestações sociais daquele período, que muitas vezes se recusavam a ser colocados no papel de lideranças e evitavam responder a perguntas sobre suas vidas pessoais – como aconteceu com representantes do movimento Passe Livre em uma entrevista para o programa Roda Viva, realizada no calor dos eventos.

Hoje, ao contrário, a figura individual dos influenciadores de esquerda tem tido cada vez mais ascendência sobre o público, mesmo que a grande maioria deles atue em movimentos coletivos diversos. Isso se deve, em grande parte, a reconfigurações operadas pelas big tech na esfera digital na última década, privilegiando produtores de conteúdos isolados em vez das interações comunitárias em rede – a “inteligência coletiva” que alimentou os sonhos de ciberativistas na virada entre os séculos XX e XXI e encheu os bolsos dos bilionários do Vale do Silício. 

A agitação revolucionária dos produtores de conteúdo de esquerda se diferencia, em forma e conteúdo, do deprimente “empreendedorismo de si mesmo” encampado por aquela categoria bastante popular de influenciadores digitais que não tem nada a oferecer ao mundo a não ser a exibição de suas próprias vidas e “identidades”. Não raro, aliás, certos socialistas e comunistas têm sido punidos com bloqueios de suas páginas pelas plataformas, cada vez mais alinhadas ao neofascismo trumpista. Mesmo assim, os esquerdistas também fazem concessões à lógica das grandes empresas de tecnologia. O próprio Jones faz uso constante dos chamados “clickbaits”, aqueles títulos ou miniaturas sensacionalistas utilizados para atrair mais cliques.

É difícil dizer até que ponto os “webcomunistas” como Jones conseguirão avançar mesmo com as suas concessões pontuais ao “sistema”. Mas a pergunta que fica para nós, aqui do Espírito Santo é: como transformar essa empolgação com a visita do influenciador comunista em ações concretas em um Estado que parece entregue ao conservadorismo? Essa foi uma das perguntas que encaminhei ao próprio Jones, via intermediários, e que ele acabou não respondendo, em meio a infinidade de agendas, e que eu deixo aqui para quem quiser se arriscar a responder.

Lucas Schuina é repórter de Século Diário, com graduação em Comunicação Social – Jornalismo e mestrado em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É autor do livro “A luta pelo cinema: Memórias do cineclubismo no Espírito Santo” (2025) e coautor da obra “Brice Bragato, uma mulher de luta: Da limpeza do curral à tribuna da Assembleia” (2023). Em 2026, lançou na internet, junto ao Cineclube Jece Valadão e ao espaço Sessão 1013, o documentário de curta-metragem “Ciclo Sentidos da Loucura”, com depoimentos de usuários do Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) de Cachoeiro de Itapemirim.

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