Diz a velha máxima que as crises geram oportunidades. Tanto a recorrente crise econômico-financeira mundial, que se arrasta aos trancos e barrancos desde 2008, quanto a crise brasileira de crescimento econômico e de grave escassez de água e de energia, são oportunidades para valorizar a agenda da economia verde.
Está outra vez na ordem do dia a questão – vital – da sustentabilidade, do aquecimento global e dos chamados extremos climáticos. Aqui e acolá. Neva exageradamente acolá. Tem seca exageradamente aqui. Os efeitos das mudanças climáticas passam a ser “sentidos” e “vividos” na prática. É a natureza cobrando a conta. Tudo isto, na prática, fortalece o processo histórico recente de construção e produção de um novo consenso em torno da possibilidade de superação do velho paradoxo crescimento “versus” sustentabilidade.
Al Gore, por exemplo, desde o auge da crise financeira global, nos idos de 2008, vaticinava que os passos necessários para minimizar a crise climática seriam os mesmos que precisariam ser tomados para superar a crise econômica e a crise de segurança energética. Na pauta dos investimentos maciços para reverter as crises, criar empregos e reanimar as economias, precisa haver foco e direcionamento para inovações tecnológicas energéticas, com vistas ao objetivo maior de produzir, transmitir e distribuir energias renováveis, assim como foco e direcionamento para salvar a água do Brasil e do planeta.
Nesta mesma direção, Michael Shellenberger defendeu há algum tempo na organização ambientalista “The Breakthrough Institute”, a ideia de grandes investimentos estatais em tecnologia, infraestrutura e educação. Investimentos que deveriam ser feitos em tecnologia para baratear energia limpa. Por exemplo, investimentos em: (a) captura e armazenamento de carbono; (b) energia solar; (c) construção de linhas de transmissão para trazer energia eólica para áreas urbanas; (d) biocombustíveis; (e) energia geotérmica.
Trata-se de redobrar esforços para a construção de uma aliança entre países desenvolvidos e países emergentes pela inovação tecnológica voltada para a energia limpa e para a redução das emissões dos gases de efeito-estufa. Nisto, o Brasil tem um papel central. Primeiro, pela importância da Amazônia no processo de contenção dos fluxos dos gases de efeito-estufa. Segundo, pela importância da difusão e utilização da tecnologia de ponta do etanol brasileiro. E terceiro pela importância do Brasil na produção de alimentos.
O novo consenso é problemático, cheio de idas e vindas, mas está em curso. Vários países já adotaram medidas emblemáticas e exemplares. A Inglaterra, por exemplo, já há alguns anos criou também um orçamento nacional expresso em toneladas de gás carbônico (CO2), e não em libras esterlinas. E implementou uma Lei de Mudanças Climáticas que prevê um órgão independente para monitorar a busca das metas de redução de gases do efeito-estufa.
Na direção deste novo consenso, é preciso ousadia, coragem, criatividade e cooperação. A construção deste novo consenso requer também que as ideias ambientalistas entrem no campo da política de possibilidades. Isto é, é preciso ir além da solução de limitar a poluição e a invasão humana, que é uma solução necessária mas não suficiente. Agora, mais do que nunca,é preciso também fazer propostas no campo da inovação tecnológica voltada para a produção de fontes de energia limpa e para salvar a água do planeta.
Nesta direção da política de possibilidades, o Brasil ainda precisa avançar muito. Precisa ainda, por exemplo, aceitar e pactuar metas internacionais de redução de emissões brasileiras. A humanidade não pode mais reduzir o estoque acumulado de estragos ambientais já consumados, mas pode reduzir o fluxo dos (novos) estragos, por exemplo o fluxo dos gases de efeito-estufa. E neste fluxo dos gases de efeito-estufa, o Brasil ainda é, infelizmente, grande emissor. Por exemplo, a forte emissão de gases dos veículos, acentuada nos últimos dez a quinze anos.
Enquanto isto, no Espírito Santo, a nova onda de manifestações sociais a favor do combate ao pó preto – apoiada pela mídia e, quiçá, pela Assembleia Legislativa e pelo governo do estado -, parece apontar para uma espécie de despertar para uma nova consciência ambiental. É cedo ainda para saber. É preciso aguardar para ver medidas iniciais concretas, para além dos discursos.
Entretanto, somada à experiência real da escassez de água e de energia, esta onda do pó preto pode ser um fator propulsor da produção de um novo consenso regional em torno da questão da sustentabilidade e do estímulo à economia verde. A consciência das ameaças reais das mudanças climáticas e dos efeitos devastadores dos extremos climáticos. Em busca de uma (nova) política de possibilidades – para além, vale repetir, da solução de limitar a poluição e a invasão humana…

