A Igreja Católica sempre esteve na vanguarda da defesa dos menos favorecidos e dos movimentos sociais. Foi assim que, ao longo da história brasileira, a instituição e vários de seus religiosos progressistas lutaram, bravamente, contra a ditadura militar e as variadas formas de violência ao ser humano, sobretudo os mais vulneráveis socialmente, como mulheres, crianças, idosos, encarcerados, sem-teto, moradores de rua, entre outros.
No Espírito Santo, uma forte voz em defesa dos oprimidos era, sem dúvida, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória (CJP), com um histórico de lutas de quatro décadas. Era…pois, no último dia 3 deste mês, foi extinta pelo chefe da Igreja no Estado, o arcebispo metropolitano Luiz Mancilha.
A decisão unilateral, altamente simbólica, significou pavimentar com rolo compressor o trabalho árduo de pioneiros na luta pelos direitos humanos no Espírito Santo, entre eles, os fundadores da CJP, o jurista João Batista Herkenhoff (que considerou a medida absurda e um ataque ao que considera um patrimônio dos capixabas), e colegas de batina de Mancilha, como João Batista da Mota e Albuquerque (arcebispo) e Luiz Gonzaga Fernandes (bispo), figuras respeitadíssimas pelo apoio e luta em prol dos movimentos sociais capixabas.
Em especial, Dom João Batista (falecido em abril de 1984), com apoio de seu bispo auxiliar Dom Luís Gonzaga Fernandes, deu início à implantação das Comunidades Eclesiais de Base no Estado. Nos anos 70, sob a influência do então arcebispo, a Igreja capixaba passou a ser reconhecida como progressista e afinada com a realidade. Realidade essa do êxodo rural que deu início às periferias capixabas e suas mazelas sociais. Nesse contexto, com total apoio do religioso, foi criada a Comissão Justiça e Paz, com lutas encampadas em favor do direito à moradia e dos encarcerados.
A CJP seguia os ensinamentos de Jesus, que, nas escrituras, conclama seus fieis a lutar pelos direitos e amparo das viúvas, dos órfãos, dos presos e dos que têm fome e sede. Em poucos dias, porém, todo seu legado foi sepultado, exatamente por quem deveria fazer questão de preservá-lo.
A medida veio após o então presidente da Comissão, Bruno Toledo, entregar uma carta de desligamento do cargo, com reação ao encontro do arcebispo metropolitano com o senador Magno Malta (PR) na Cúria Metropolitana. Malta fez questão de prestar apoio ao religioso, que dias antes divulgou um vídeo contra a descriminalização do aborto em que fazia um duro ataque ao Partido Socialismo e Liberdade (Psol). Mancilha acusou a legenda de ser “um partido que defende a morte” e convocou os fieis a boicotarem a legenda nas eleições deste ano.
Se o arcebispo se uniu a Malta contra a descriminalização do aborto, uma causa que é sabida comum aos cristãos evangélicos e católicos, parece ter se esquecido que o senador é também, igualmente, a favor da pena de morte, uma questão em que a Igreja Católica, recentemente, se colocou veementemente contrária. A decisão, inclusive, foi tomada pelo Papa Francisco, que modificou o catecismo da Igreja.
Ao que parece, Luiz Mancilha tem extrapolado a missão de padre dos fieis católicos capixabas, se colocando numa posição que o tem aproximado do viés político-ideológico mais à direita conservadora.
A defesa intransigente contra a descriminalização do aborto o levou a aproximações e posturas questionáveis. Além disso, custou a extinção de uma das instituições mais respeitadas da Igreja no campo social, um fato inédito na Igreja Católica Brasileira, que, por sinal, se recusou a comentar o assunto.
Procurado por Século Diário, o secretário executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz (ligada à CNBB), com sede em Brasília, Carlos Alves Moura, disse, no último sábado (4), que comentaria o assunto. Depois disso, no entanto, se recusou a atender as chamadas do jornal.
Haverá consequências para a postura arriscada do arcebispo?

