Tem coisas acontecendo por aí que até parecem mandinga, como diziam no tempo das tropas de burro. Essas sumiram da paisagem, mas onde foram parar os burros? Diziam também que a vida imita a arte, ou seria o contrário? O avesso do avesso. Diziam que os autores eram criativos, mas criativa é a vida. Nós, escreventes, mesmo não sendo juramentados, vamos só copiando.
O escritor é um atento observador do que vai acontecendo no desenrolar da vida. Vai daí, liga os pontinhos e faz sua colcha de retalhos, ou junta os cacos e faz um vitral, como fez Adelia Prado – corta, recorta, alinhava, cola, ajusta, emenda, remenda… no final alisa com o ferro a brasa, e o resultado é sempre inesperado – fica bonito ou estraga tudo. Moral da história, se não tem vida acontecendo pelas aleias do mundo, também não tem escritor pra contar.
Tudo que acontece ao nosso redor dá filme, diria o Lili Seguera, imigrante ilegal mas bem intencionado. O rapaz trabalha de sol a sol, como se dizia no tempo das ladainhas de maio, juntando os dólares pra comprar um casamento convincente. Quanto mais Dona Imigração aperta o cerco, mais caros esses vão ficando, e os dólares do Lili mal dão pras despesas básicas, mais cinema e donuts. Embora proveniente de boa família capixaba, o menino é viciado nas rodelinhas açucaradas.
E é graças a esse vício engordante que o Lili conhece a Annie, vendedora da loja Dunkin Donuts que ele frequenta. Ambiciosa por natureza e solitária por descuido, a constância das visitas do brasileiro faz o contato profissional evoluir para o terceiro grau, permitindo a troca de confidências. Ela conta que precisa comprar um carro, mesmo velho, para fazer as entregas. Paga melhor e ainda ganha gorjetas. Ele conta que precisa comprar uma noiva, nova ou velha, mas ainda não conseguiu a quantia exigida.
Quanto? pergunta ela. Ele explica que andam pedindo 20 mil, e ela corrige, Perguntei quanto você já tem. Ele revela a quantas anda seu sonho de se regularizar no país, e não mais que de repente, acende-se a lâmpada das boas ideias. Feitas as conta e tirando-se a prova dos nove, dá pra comprar o carro que ela precisa, mesmo velho, e morando juntos ainda reduzem as despesas. Pausa para meditação: quem, quando, tira a prova dos nove de alguma conta? Fomos enganados na escola.
Lili e Annie se casam por interesse financeiro, apenas, contatos imediatos de segundo grau, e o carro comprado cumpre sua obrigação de expandir as possibilidades salariais da família. Lili, porém, tem que pagar a dívida do casamento antecipado com serviços domésticos, tipo cozinhar, limpar, lavar e secar os pratos e as roupas, tirar o lixo, ir às compras.. Agora documentado, Lili poderia arranjar um bom emprego, mas Annie prefere ver a casa arrumada e o jantar na mesa quando volta cansada do trabalho.
Foram felizes por dois anos, até terminar a quarentena e Lili obter o visto definitivo. Sem vocação para as prendas domésticas, como diziam no tempo do fogão de barro, Lili sai de fininho, deixando um recado na porta, Considere minha dívida paga. Adeus. Annie chora sua chance perdida de felicidade, enquanto o Lili, com parco inglês, acaba voltando – graças às referências da Annie, consegue emprego na mesma loja da Dunkin Donuts. Voltam a morar juntos para diminuir as despesas, e os contatos evoluem para o primeiro grau. E viveram felizes por mais dois anos.

