A reunião dessa terça-feira (17) entre os deputados que fazem parte da Comissão de Representação da Assembleia Legislativa e os diretores da Samarco, em termos de resultados práticos, foi inócua. A discussão não produziu uma agenda positiva para o enfrentamento da tragédia que eclodiu em Mariana (MG) e chegou ao Espírito Santo por meio do já moribundo e agora agonizante rio Doce. Mas, de outro lado, serviu para tirar a carapuça de alguns deputados que querem fazer média com a sociedade sem, contudo, expor a Samarco.
A sensação de que a reunião não passava de uma encenação ficou evidente antes mesmo de a comissão abrir os debates – se é que se pode definir assim a reunião. O presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM), levou a reunião para o seu gabinete com a clara intenção de fazer uma conversa a portas fechadas. Essa seria a estratégia mais fácil para blindar a empresa. Depois da reunião, os deputados fariam um filtro e informariam à imprensa um resumo da conversa, tentando minimizar a responsabilidade da mineradora sobre a tragédia.
Depois de alguma pressão por parte da imprensa, o presidente da comissão, deputado Josias Da Vitória (PDT), permitiu o acesso dos jornalistas. Se bem que a chamada grande imprensa capixaba parecia não estar fazendo muita questão de entrar ou ficar do lado de fora. Um dos jornais fez uma cobertura tão burocrática, que mais desinformou do que infomormoou. O outro foi mais prático, simplesmente não publicou uma linha sequer sobre a reunião. Será que a pauta caiu por que o jornal julgou que assunto não interessava aos capixabas?
As evidências confirmavam que havia muita tensão no ar. Uma preocupação para não pôr a Samarco no banco dos réus e condená-la pelo crime. Os deputados queriam apenas fazer perguntas burocráticas à empresa para sair da reunião com algumas promessas na mão. Anunciariam, por exemplo, que a mineradora vai garantir o fornecimento de água à população dos municípios de Baixo Guandu, Linhares e Colatina – os três mais afetados pela tragédia.
Tudo parecia bem ensaiado, só faltou combinar o roteiro da encenação com o colega Enivaldo dos Anjos (PSD). O deputado, que acompanhava a reunião à distância – não queria se sentar à mesa com os representantes da empresa criminosa -, quebrou o clima de cordialidade entre os parlamentares e os representantes da Samarco. Foi direto ao ponto: “Vocês são criminosos”, cravou. “O rompimento foi falta de responsabilidade da empresa”; “Vocês acabaram cometendo um crime e são criminosos por tudo que vocês causaram ao Espírito Santo e Minas Gerais”, acusou Enivaldo.
Em seguida, o deputado criticou o diretor comercial da Samarco, Ricardo Carvalho, que se ocupava de fornecer detalhes sobre o abastecimento dos municípios com caminhões-pipa. “Ficar falando sobre abastecimento de água é ridículo”, cortou Enivaldo, que emendou: “O senhor está fazendo aquele papel de jogar barro na parede para ver se cola”, disse, em menção à tentativa da mineradora de “enrolar” os deputados e a população. Constrangido com as críticas diretas de Enivaldo, o executivo da poluidora tentou se defender. “Nós estamos operando aqui no Espírito Santo há 40 anos”, disse, querendo justificar que não houve outras tragédias semelhantes no Estado neste período. A argumentação irritou ainda mais Enivaldo. “Por isso mesmo que não justifica. Estão operando, mal. Contaram com a sorte até hoje”, encurtou a conversa.
O deputado Enivaldo dos Anjos disse aos representantes da Samarco tudo aquilo que estava entalado na garganta de mineiros e capixabas inconformados com a catástrofe e revoltados com a omissão da empresa. O deputado mostrou aos executivos da Samarco que na tragédia da lama, a estratégia de “jogar barro na parede para ver se cola” não funciona com todo mundo.

