Em artigo publicado no jornal O Globo nessa sexta-feira (5), o jornalista Luiz Cláudio Cunha tornou público seu desligamento da Comissão Nacional da Verdade, onde atuava desde setembro como consultor do grupo de trabalho sobre a Operação Condor, conluio policial-militar organizado na década de 1970 pelas ditaduras militares do sul do continente para tirar dissidentes políticos de circulação, em muitos casos para sempre.
Autor do livro O Sequestro dos Uruguaios (L&PM, 2008), do qual foi protagonista em 1978 em Porto Alegre, onde era repórter da revista Veja, Cunha atribuiu sua saída a divergências com o que ele chama de “quarteto punitivo da CNV”, formado (segundo ele) pelos comissários Paulo Sergio Pinheiro, José Carlos Dias, Maria Rita Kehl e José Paulo Cavalcanti.
A presidente da comissão, advogada Rose Cardoso, é apontada por Cunha como “herdeira solitária da confiança das entidades de direitos humanos, cada vez mais desconfiadas sobre o resultado final dos trabalhos da comissão”. Em meados de junho, deixara a comissão Cláudio Fonteles, ex-procurador-geral da República. O sétimo comissário é Gilson Dipp, ministro do STJ.
O motivo da “demissão”, formalizada por Rose Cardoso, seria a publicação de um artigo difundido pela Internet a partir de 24 de maio passado (“A comissão de frente da mentira: quem teme a verdade sobre a ditadura?”) onde o jornalista denunciava a falta de empenho do ministro da Defesa e seus comandantes do Exército e da Marinha no resgate da verdade sobre graves violações de direitos humanos cometidos especialmente nos 21 anos da ditadura militar.
Nesse artigo, Cunha criticava ainda o comissário José Carlos Dias por antecipar seu veto a qualquer parecer contra ao manto de impunidade que cobre os praticantes de torturas no país. “Não cabe à CNV fazer este tipo de recomendação”, disse Dias, ex-advogado de 700 presos políticos e ex-ministro da Justiça.
Ao denunciar as divergências dentro da CNV, Cunha aponta Pinheiro, professor de ciência política da USP, como “centralizador, exasperado, irritadiço, que explode em chiliques e gritos que transbordam as finas paredes do segundo andar do CCBB, em Brasília”. Outro trecho do artigo diz que, “pelo estilo, gestos e e-mails, Pinheiro exibe a pretensão de ser uma espécie de tutor sobre os outros comissários, base do afastamento de Fonteles e do isolamento de Cardoso”.
Segundo Cunha, Pinheiro ficou irritado com a recente revelação da agenda de visitas de empresários e diplomatas americanos ao DOPS paulista na época da ditadura. O vazamento atribuído a Ivan Seixas, presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana em São Paulo, teria atrapalhado entendimentos de Pinheiro com diplomatas dos Estados Unidos para obter documentos americanos que podem revelar detalhes secretos da ditadura, como já aconteceu com o Chile e a Argentina desde o governo de Bill Clinton (1993-2001).
Outra revelação do artigo de Cunha é que Pinheiro ficou chateado com uma recente cobrança da presidenta Dilma por mais transparência e menos sigilo nos trabalhos da CNV. Insatisfeita com o distanciamento da comissão da opinião pública, a ex-presa política agora instalada no Palácio do Planalto sugeriu “uma catarse das feridas abertas pela ditadura”. Pinheiro, que trabalhou como diplomata em questões de direitos humanos, prefere operar sem holofotes nem foguetório. “Uma incongruência”, afirma o jornalista Luiz Cláudio Cunha, crente de que o papel de qualquer comissão da verdade é botar o bloco na rua, engrossando o caldo do relatório final.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“É importante não esquecer.
É necessário lembrar para resgatar o sentido correto das ações.
É preciso contar para recuperar o significado exato das palavras.
Lembrar e contar.
Em nome da dignidade.
Em nome da liberdade.”
(Luiz Cláudio Cunha no final do livro O Sequestro dos Uruguaios, L&PM, 2008)

