Passada a eleição, votos contados e recontados, fica no ar um gosto de desgosto – o que mudou vai melhorar alguma coisa? O que não mudou vai trazer mudanças ou continuar no marasmo de sempre, no tudo como dantes no quartel de Abrantes? Sempre lembrada nessas horas. Abrantes, às margens do rio Tejo, foi a primeira cidade portuguesa a ser invadida pelo general francês Junot, braço-direito de Napoleão. Lá ele instalou seu quartel-general e, meses depois, se fez nomear Duque d’Abrantes.
Do resto sabemos bem, a fuga da família real, o começo de nossa história. Napoleão foi derrotado pelas tropas inglesas, mas no quartel de Abrantes tudo ficou na mesma – a cidade continuou na mão dos franceses. Quando os portugueses perguntavam como iam as coisas, ouviam a desalentadora resposta: “Tudo como dantes no quartel d’Abrantes”. A frase entrou para o anedotário popular e ainda hoje se usa para indicar que não há sinais de melhoras.
Terminada a eleição, santinhos e cédulas varridos pelos garis, o candidato Bernardo Abrantes chora sua trágica derrota. Fez tantos planos, mas piormente, fez tantas dívidas, para nada. O que fazer agora pra pagar aos credores? Parentes e amigos que acreditaram em sua luta e investiram na campanha, na esperança de um empreguinho futuro… Tão dedicados antes, tão irritados agora, “E meu dinheiro, cara? Não foi doação de campanha, foi empréstimo”.
Bernardo encara suas duas opções na vida: assumir o fracasso e sair pra outra ou começar a se organizar para o próximo pleito. Afinal, tudo pode mudar, e quem perdeu essa pode bem ganhar a próxima. Mas Clarinha, a esposa, não pensa assim, “Chega! Você vendeu a casa, o carro, o terreno em Guarapari, o sítio em Campinho, as bicicletas dos meninos, minhas joias, o microondas, o título de sócio do Álvares, e não conseguiu voto nem pra garantir um cargo comissionado. Chega!”
O derrotado insiste, “Mas Clarinha, não sei fazer nada na vida, do que vamos viver? Da Bolsa Família?” Clarinha não se deixa convencer, “Vai fazer concurso público, ora essa!” Apesar dos desgostos, o marido gargalha, “Tá mal informada, querida. Teve muito mais candidatos no último concurso pra gari da prefeitura do que pra vereador… com menos vagas, e exigindo curso superior. E ainda descontam os uniformes”.
Em vão Clarinha tenta demover o marido da insana mania. Essa não foi a primeira, mas a terceira vez que ele se candidata, e o número de votos obtidos sempre caindo. “Isso já é ideia fixa, vai em frente, esquece”. Mas o persistente Bernardo tem sempre uma desculpa, “Olha o Lula, meu modelo de político ideal. Quantas vezes ele tentou? E se ele tivesse desistido na segunda derrota?”
Bernardo Abrantes foi o primeiro a se inscrever para as próximas eleições, outra vez para vereador. Bem que tentou entrar na fila para deputado, mas o partido não o aceitou. Clarinha, não tão persistente, deu o fora; migrou pra Miami e saiu pra outro. Nas raras vezes que vê Bernardo e pergunta como estão as coisas, a resposta é sempre a mesma. “Tudo como antes no quartel do Abrantes”.

