Ao fazer a busca por Alailton Ferreira, no Google, os primeiros resultados se referem a um cabeleireiro mineiro de BH, que tem mais um Santos no sobrenome e não tem nada a ver com a história do (parcial) homônimo capixaba. Só após descer a barra de rolagem é que aparecem os primeiros resultados sobre a notícia do espancamento e morte do adolescente de 17 anos, que foi brutalmente linchada por populares, no último domingo (6), no bairro Vista da Serra, na Serra. Cerca de 48 horas depois do linchamento público, na madrugada da terça-feira (8), o hospital anunciava a morte do jovem, que não resistiu à fúria da turba ensandecida.
Quem assiste ao vídeo (não recomendado, nós jornalistas só assistimos porque a profissão exige) fica atônito com a crueldade das cenas. Vem automaticamente a constatação: Parece que o ser humano realmente não deu certo. Os populares parecem estar em transe. Os que não participam diretamente do espancamento incentivam os agressores a baterem mais. São ouvidas frases de ódio: “Mata logo!”; “Dá na cara dele”; “Bate mais”. O jovem negro, todo coberto de sangue, indefeso, já não reage. Provavelmente desconhece o motivo do linchamento.
Os agressores e espectadores também não sabem muito bem o motivo da sova, mas querem extravasar seu ódio no corpo indefeso, como se estivessem numa folia de Judas. “Ouviram dizer” que o jovem teria intencionado estuprar uma menina de 10 anos e tentando roubar uma moto. Segundo a polícia, não houve registro de queixa nem de um, nem de outro suposto crime. O único crime flagrado pela polícia foi a tentativa de homicídio, que horas depois foi consumada.
O caso de Alailton lembra o recente caso de outro jovem negro que foi amarado a um poste e cruelmente espancado por “justiceiros”. O caso, que aconteceu na zona sul do Rio de Janeiro, só não teve o mesmo desfecho mórbido do caso de Alailton porque uma ativista social interveio e salvou a vida do adolescente.
Alailton não teve anjo da guarda. Os moradores de Vista da Serra que presenciaram o crime, de alguma maneira, foram coniventes. As pessoas estavam mais interessadas em registrar (há vários vídeos nas redes sociais) as cenas da barbárie a denunciar o crime ou mesmo tentar intervir, como fez a ativista social carioca, para que a violência cessasse.
A polícia, que teria chegado quase duas horas após o início do linchamento, também demonstrou total despreparo para lidar com a ocorrência. As imagens mostram os policiais segurando Alailton pelos braços. O jovem desmilinguido já não consegue coordenar os passos. Está praticamente desmaiado, mas os policiais o forçam a caminhar. Pior, ao chegar a viatura, os policiais abrem o “guarda-ladrão” e depositam o corpo inerte como um saco de batatas no porta-malas. Do jeito que o corpo cai no chiqueirinho”, todo torcido, fica.
A ação da turba naturalmente é condenável. Não há nem palavras para classificar o que houve em Vista da Serra. Causa mais repugnância ainda alguns comentários postados nas redes sociais que comentam o vídeo. É incrível, mas havia gente (se é que se pode chamar assim) festejando a ação dos criminosos e caçoar de Alailton.
Mas a ação da polícia também foi um desastre. Não precisava ser socorrista para perceber que o estado de Alailton era gravíssimo. Afinal, ele ficou sofrendo agressões seguidas de dezenas de pessoas durante mais de hora. Os agressores usaram pau, pedra, barras de ferro para massacrar a vítima. A intenção era matar mesmo. A polícia, no entanto, tratou o jovem como um bandido, ou seja, aceitaram a versão de um bando de desajustados que matam pessoas à unha. Mesmo que Alailton tivesse sido flagrado praticando um dos crimes (tentativa de estupro ou furto), diante da situação do jovem após o espancamento, a polícia teria que tratá-lo como uma vítima que necessita de cuidados médicos.
O correto era a polícia preservar a vítima até a chegada do Samu, que é o serviço especializado para fazer esse tipo de socorro. Ao transportar Alailton como um criminoso, no “cofre da viatura”, os policiais podem ter agravado o estado de saúde da vítima. Ali mesmo na viatura ele poderia ter tido uma hemorragia interna ou outra intercorrência qualquer. Na unidade de resgate, Alailton seria socorrido adequadamente e suas chances de sobrevivência aumentariam. Mas parece que essa também não era a preocupação dos policiais.
Fica aqui uma sugestão para os nossos parlamentares e para o secretário de Segurança, André Garcia. Em São Paulo, graças a uma resolução da Secretaria de Segurança Pública, em casos graves de violência – como tentativa de homicídio e pessoas feridas em confronto com a polícia – só podem ser socorridos por equipes de resgate, como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A medida também alterou a classificação das ocorrências com mortos pela polícia de “resistência seguida de morte” para “morte decorrente de intervenção policial”.
Após a mudança, ocorrida em janeiro de 2013, o número de mortes decorrentes de intervenção policial diminuiu em São Paulo.
Para reflexão: por que o cruel espancamento de Alailton, muito mais grave do que o episódio do jovem espancado no Rio (afinal, o adolescente capixaba morreu) não teve a mesma repercussão na mídia? Será que esses casos já estão sendo banalizados pela sociedade?

