Confirmando seu caráter conservador, o eleito ignora a oferta de medalhões da política e, fora os notórios Paulo Guedes na Economia e Sérgio Moro para a Justiça, escolhe figuras obscuras e afinadas com um ideário retrógrado.
Mal ou bem, ele está sendo coerente com o que pregou na campanha eleitoral, marcada por um comportamento extremamente sincero:
1 – preso a uma camisa-de-força ideológica, ofendeu as mulheres, os gays, os índios e os quilombolas, desdenhando dos direitos humanos e ignorando o conceito elementar de cidadania;
2 – defendeu a tortura de presos políticos, colocando-se ao lado da linha dura das Forças Armadas, que já ocupam postos no novo governo. Por vias indiretas, voltamos a 1979, quando imperava o arbítrio, e o casuísmo era moeda de troca na vida nacional;
3 – deixou implícito que não se confunde com os políticos convencionais, habituados à chantagem, ao conchavo e à hipocrisia parlamentar – que se caracteriza pelo discurso moralista da boca pra fora e às pechinchas de gabinete e de bastidores;
4 – declarou-se disposto a combater a “corrupção política”, vício nacional histórico colado nas costas do PT, o partido que paradoxalmente mais medidas tomou em favor da maioria desfavorecida da população;
5 – por uma habilidosa manipulação semântica, sacramentada por uma mídia supersubserviente, está subentendido que é preciso desmanchar programas criados pelo PT, como o Mais Médicos, o Minha Casa Minha Vida e etc.
6 – por um mecanismo retórico ainda mais sutil, está aberto o caminho para a privatização das estatais, todas estigmatizadas como antros de empreguismo e focos de corrupção, tendo como referência o que se descobriu na Petrobras. Assim, também por culpa do PT, empresas tradicionais como Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Correios, Eletrobrás e outras foram colocadas no mesmo patamar da ineficiência, sendo passíveis de privatização, favorecendo os donos do Mercado.
Somente alguém muito ingênuo pode supor que o eleito descobriu essas “saídas” por conta da própria intuição ou percepção superior. No mundo em que vivemos, a partir de certo momento da campanha eleitoral, ele passou a receber input’s de fora, a começar pelos filhos, irmanados na vida parlamentar e já cercados por uma plêiade de assessores pagos com dinheiro público; e mais os amigos militares, ex-colegas de farda e toda uma rede de colaboradores e empreendedores que foram chegando para “ajudar”, afinal, a candidatura havia se tornado uma causa para o Mercado, do pentecostalismo, do militarismo, da Direita em geral.
A esta altura, tudo indica que há um estado maior operando nos bastidores para monitorar o governo. De poder moderador, as Forças Armadas passam a exercer o papel de poder controlador. Embora tenha sido “reformado” dos quadros do Exército, o eleito carrega dentro de si duas tendências: se por um lado é capaz de respeitar a hierarquia e seguir os regulamentos, por outro é explosivo e indisciplinado, sendo capaz de chutar o balde e jogar tudo para o alto, em nome da autoridade presidencial.
Como ficarão as coisas se a Direita mais furiosa quer passar o trator por cima dos obstáculos, da oposição e quem ousar se colocar no caminho?
“Agora é nóis”…não é bem assim.Tamanho imediatismo é estúpido pois, ao fazer agrados à minoria dona do dinheiro, alimenta a desesperança e a frustração da maioria sem recursos.
Quem vai com muita sede ao pote…pode quebrá-lo.
O futuro governo, que já se delineia, ainda não tem um porta-voz. Por enquanto, o eleito se manifesta espontaneamente, enquanto os ministros escolhidos ou se encolhem ou dão tiros no escuro.
Para ele, não há meios termos. É a favor dos EUA e, portanto, contra a China, Cuba, Venezuela etc.
A franqueza do presidente eleito torna mais fácil o entendimento das coisas. Quando diz que os médicos cubanos eram agentes secretos infiltrados, ele está admitindo implicitamente que o novo governo renunciou a qualquer veleidade de soberania diante da potência hegemônica.
Esse primarismo político, ideológico e diplomático é do tempo da Guerra Fria. Quanto tempo levará o eleito para descobrir que o mundo não é binário e que o Brasil tem uma bem-sucedida tradição de pluralidade?
Voltamos, portanto, à doutrina de segurança nacional formulada em 1949 pelos intelectuais da Escola Superior de Guerra liderados por Golbery do Couto e Silva.
Essa doutrina de alinhamento automático aos EUA foi reformulada no governo Geisel (1974-1979), que ousou dar uma guinada para a Europa, a Africa e a Asia por meio de uma série de acordos técnicos e econômicos. Acordo nuclear com a Alemanha; acordo tecnológico e comercial com o Japão para colonização do cerrado e exportação de soja; abertura com a África para obras de empreiteiras que abriram caminho para a exportação de serviços e equipamentos. Pragmatismo responsável, esse o nome do jogo.
Pelo que tem deixado escapar em declarações e desabafos, o futuro presidente não conhece esses detalhes da História ou, com a cabeça feita não se sabe por quem, nutre por isso tudo um profundo desprezo.
O fato é que, nas escolhas que faz de pessoas para os cargos principais do governo, ele está montando um ministério liberal-conservador na economia, educação, saúde e segurança.
O que o Brasil tem de melhor, do ponto de vista econômico, será concedido aos investidores internacionais. A parca experiência adquirida na gestão das riquezas nacionais vai para a cucuia.
Quem poderá resistir a essa avalanche conservadora?
A Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal, as instituições nacionais: universidades, sindicatos, os movimentos sociais, a sociedade civil representada pela OAB, ABI e, no fundo, a população.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Às favas os escrúpulos de consciência, senhor Presidente!”.
Coronel Jarbas Passarinho ao apoiar a edição do Ato Institucional Nº 5 em 13/12/1968.

