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Terça, 01 Dezembro 2020

O desafio dos municípios

 

Novos gestores municipais serão eleitos neste ano. Junto com eles, novos legisladores. Talvez não tenhamos, ainda, a felicidade da depuração total dos quadros políticos, e acho que nunca a conseguiremos, mas o aprendizado democrático avançou muito, principalmente porque o Judiciário resolveu entrar em campo e dar sua ajuda republicana.
 
Havia um sentimento de que o crime compensa na política. E sempre haverá quem arrote que isso não vai dar em nada. Se eu estivesse no lugar desses ignóbeis, não teria tanta certeza e colocaria a barba de molho. Existe vontade política de um grupo de pessoas de bem para que a bandalha não prospere.
 
Do outro lado, resta à sociedade compreender o novo momento e juntar-se a ele. Não precisa fazer adesão institucional, porque eu também não me iludo muito com isso, uma vez que as instituições tomarão os rumos das ideias de seus dirigentes, e eles passam. Falo de aproveitar a onda e surfar nela.
 
Uma prática muito comum na política brasileira é tomar a população refém fazendo benesses com o dinheiro público. É o exemplo clássico de Presidente Kennedy, onde somente o dinheiro dos royalties do petróleo daria para pagar R$ 800,00 a um professor para cada habitante, mas o município amarga índices lamentáveis de desenvolvimento humano. A se levar pelo “clamor público”, entretanto, tudo ficaria como dantes no quartel de Abrantes.
 
Um antigo oficial da PM capixaba, estudioso de Nicolau Maquiavel, gostava de aplicar uma ideia adaptada do conselheiro da monarquia da península itálica:  o povo conspira com quem o protege. No sistema republicano, se o Estado não faz isso de forma equânime e justa, não faltam pequenos emires para assumirem o imaginário coletivo do coronel, do paim, do caudilho.
 
Kennedy é típico porque, em vez de estrutura para libertar o povo, os dirigentes políticos criaram esquemas para aprisionar a cidadania debaixo do balaio. Mas chutaram o balaio de gatos em que aquilo se transformou, com a conivência de pretendentes a “sheiks” do petróleo que povoa nosso subsolo em quantidades ainda por se calcular.
 
Quero deixar uma única proposta de mudança de rumo para os novos gestores que vêm por aí: invistam na educação. Não estou falando daquilo que se convencionou chamar de educação, a das escolas de adestramento mental e de transmissão de conhecimento, mas da educação verdadeira, a que vem do berço.
 
Vai mudar esse País quem ousar investir na base, na família, criando programas que reensinem a homens e mulheres a serem pais e mães verdadeiros, a construir bases de valores éticos para seus filhos. Estou falando, mesmo, do essencial na nossa cultura judaico-cristã: “ensina o menino no caminho em que deve andar e, mesmo depois de velho, não se desviará dele”.
 
Falo não de arroubos populistas, mas de programas de governo, política de Estado, como tão bem foi aplicado o programa de proteção social que vem se aperfeiçoando em nível federal. Para quem não gosta, quero somente contar uma historinha que vivenciei há poucos dias, quando estava voltando do Norte do Estado e dei uma carona a um cidadão de São Domingos do Norte para Colatina.
 
Puxei conversa e ele contou-me sequer saber escrever o nome, mas é um eficiente e confiável trabalhador em fazendas da região, gozando de total confiança de seus patrões e ganhando um salário que tem gente com diploma debaixo do braço que não ganha, até porque boa parte está desempregada ou subempregada para não passar vergonha.
 
A despeito de um circunstancial desajuste familiar, que está sendo “ajeitado”, falou com orgulho que a mãe de seus filhos não trabalha. Fica em casa cuidando dos três e vivendo do Bolsa Família e do que ele manda para contribuir nas despesas de casa. Os três filhos, certamente, têm futuro mais promissor do que viver da proteção social do Estado brasileiro, porque estão todos estudando e avançando, ano a ano. É a condição para que a família receba o apoio financeiro.
 
Será que os que condenam esse tipo de política costumam pelo menos abrir seus carros de luxo para vivenciarem a experiência dessa gente humilde e digna, e abrir seus ouvidos para saber sua história, antes de acharem que o governo está criando uma horda de vagabundos, porque está tirando do sistema capitalista “a força de trabalho” das mães que ficam em casa, para cuidar dos filhos?
 
É bom a gente observar, ouvir e pensar antes de emitir juízos preconceituosos, antes de conhecer. A companhia daquele senhor negro “pagou” minha viagem.

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