Parece que o alarmismo da mídia começa a refluir diante das evidências de que a presidente Dilma Rousseff não foi a nocaute após seis meses de campanha para derrubá-la.
“Eu não vou cair”, disse ela em entrevista à Folha de S. Paulo, um dos jornais que mais batem no governo. A presidente saiu-se na defensiva, quando poderia ser mais ofensiva, desafiando os adversários e inimigos. Com uma frase do tipo “ninguém me derruba”, mandaria um recado geral não só aos empresários e políticos, mas aos militares.
Cautelosa, um tanto quanto insegura, ela também não aceitou o conselho do ex-presidente Lula, que sugeriu “buscar o ombro do povo”. (Dez anos atrás, quando se sentiu acuado pelas denúncias do Mensalão, o presidente Lula foi a um evento na Petrobras e se atirou nos braços dos petroleiros, cena que rendeu fotos espetaculares na mídia).
De qualquer forma, o “não vou cair” foi uma resposta presidencial aos que prognosticaram a iminência de uma renúncia ou de um processo rápido de impeachment por conta de dois processos, um do Tribunal de Contas, outro do Tribunal Superior Eleitoral.
No TSE, Dilma é acusada de usar verbas de propina na última campanha eleitoral – acusação grave, mas dinheiro semelhante irrigou campanhas adversárias. No TCU, a presidenta é cobrada por irregularidades, chamadas “pedaladas fiscais”, na gestão do orçamento da União.
Na mesma segunda-feira (6 de julho) em que Dilma falou à Folha, o jurista Ayres Brito, ex-ministro do STF e juiz do Mensalão, disse no programa Roda Viva, da TV Cultura paulista, “ter conhecimento” de que a situação da presidenta Dilma “não é nada boa” no TCU ou no TSE. O apresentador Augusto Nunes estufou as bochechas, exultante.
“Tecnicamente”, Ayres Brito explicou que Dilma pode mesmo ser destituída do cargo pelo TSE, cabendo ao presidente da Câmara dos Deputados convocar eleições para dentro de 90 dias.
Na quarta-feira, o jornalista Élio Gaspari descartou a hipótese de condenação pelo TSE. “Basta que um ministro peça vista do processo”, escreveu ele, “e tudo fica parado”.
Respondendo à última pergunta do Roda Viva, Ayres Brito mostrou-se bonzinho: disse torcer para que Dilma, eleita democraticamente, “se levante e ande”, rumando para o fim do mandato em 2018.
No dia seguinte, depois de anunciar um programa para evitar demissões com redução de jornadas de trabalho e diminuição dos salários, numa resposta ao desemprego que chegou a 8,1% — nos bons tempos, era de 5,9% –, Dilma viajou para uma reunião dos seus pares do BRIC na Rússia.
Viagens internacionais sempre foram um santo remédio para diluir crises políticas. Fernando Henrique Cardoso abusou delas e Lula também.
LEMBRETE DE OCASIÃO
A Petrobras não se saiu mal no primeiro round do processo que lhe movem advogados de acionistas e fundos de investimentos norte-americanos desgostosos com as notícias sobre corrupção na petroleira brasileira. O juiz responsável pela ação coletiva acolheu parcialmente argumentos da defesa da estatal mas marcou para o dia 1 de fevereiro de 2016 o início do julgamento. Evidentemente, esse processo não é só de acionistas descontentes; faz parte de uma jogada global para desvalorizar os papéis da Petrobras. É aí que mora o perigo. Além de perder valor, a Petrobras pode sofrer sanções severas.

