Com um gesto, o senador Ricardo Ferraço (PMDB) pode ter modificado os rumos e tendências da sucessão capixaba de 2014 e, possivelmente, também os rumos e tendências da própria política capixaba. Ao declarar que não será candidato a governador do Espírito Santo em 2014 e que, mais ainda, vai apoiar a candidatura à reeleição do governador Renato Casagrande (PSB-ES), Ricardo simplesmente deu um “cavalo de pau” e causou um efeito pertinente e estrutural na política estadual. No jornalismo costuma-se dizer que uma foto-imagem pode valer mais do que mil palavras. Na política, costuma-se dizer que um gesto pode valer mais do que mil discursos. O gesto de Ricardo Ferraço valeu. É a política do gestual e dos efeitos simbólicos.
Ricardo optou pela demarcação da sua identidade política. É simples assim. Senador de 1.6 milhões de votos com muitos anos de estrada na política, ele sinalizou que trilha o caminho político da luz própria, para além dos rótulos de “filho político de Theodorico Ferraço” e “pupilo de Paulo Hartung”. O seu gesto muda o tabuleiro e reposiciona as pedras.
Um gesto que terá efeitos práticos em várias instâncias do processo sucessório estadual: na Convenção do PMDB estadual, portanto, na própria escolha das candidaturas do PMDB; na formação das alianças majoritárias e proporcionais; e no arranjo e rearranjo das novas árvores políticas capixabas. Alinhado com o prefeito de Vitória Luciano Rezende (PPS-ES) e com o governador Renato Casagrande, o gesto de Ricardo pode abrir caminho para novas lideranças, e, ao mesmo tempo pode recolocar no palco ou nos bastidores lideranças experientes e respeitadas como o ex-governador Gerson Camata (PMDB), dono de respeitado patrimônio político-eleitoral.
Não é pouca coisa. Uma espécie de freio de arrumação. Ele fala em opção pela união mas, paradoxalmente, na verdade induz ao fim da assim cunhada (por Luiz Paulo Vellozo Lucas) unanimidade bonapartista. Nem unanimidade, nem bonapartista. Se o governador Renato Casagrande – alinhado com o senador Ricardo Ferraço e com o prefeito Luciano Rezende, por exemplo -, trilhar mesmo o caminho de construir alianças fora do território político demarcado pelo ex-governador Paulo Hartung, então a união deixará de ser unanimidade. E a disputa se dará mesmo que Paulo Hartung decida ser candidato a senador, e não a governador como se presume neste momento.
As especulações sobre as possibilidades e alternativas de candidaturas e alianças aumentaram. O que parece correto supor é que Hartung realmente teria decidido ser candidato. Ficar sem mandato, nem pensar mais. Agora, ele estaria avaliando a opção de uma candidatura a governador para bater chapa com Renato Casagrande. Mas como Paulo Hartung não é um político de perfil de fazer o jogo do tudo ou nada, ainda se pode esperar a sua opção por uma candidatura ao Senado.
Ele está acumulando forças, andando pelo Estado e avaliando as possibilidades. E ainda tem o cenário – improvável, embora possível – dele sair candidato a deputado estadual para permanecer no Estado e puxar votos, tornando-se virtual presidente da Assembleia Legislativa em 2015. Estas parecem ser as opções, com mais probabilidade hoje de Hartung sair candidato a governador, a julgar pela artilharia que ele já mobilizou. Ele já sabe que Casagrande reafirmou que é candidato a governador e que está disposto a bater chapa. Disputa anunciada. Disputa iniciada.
Do seu lado, Renato Casagrande ainda não mobilizou a sua artilharia. Mas já teria mobilizado a sua infantaria. E teria concluído que para bater chapa será preciso não apenas articular e agregar as suas redes de apoio político, social e empresarial. Mais do que isto, será também fundamental se preparar para disputar o campo das ideias e das propostas -com propostas e com bons quadros para governar -, tendo em vista a artilharia de desconstrução da imagem do seu governo já disparada por pessoas do grupo político de Hartung. E disparada também por forças políticas que podem entrar no processo como forças auxiliares de Hartung, como é o caso da candidatura de Guerino Balestrassi a governador (sonhando com um segundo turno) e como poderá ser o caso de uma eventual candidatura de Luiz Paulo Vellozo Lucas ao Senado.
O momento é de conversar para saber quem vai com quem. Conversar para acumular forças e para demarcar os territórios. E, aí, ganham importância, além da liderança de Ricardo Ferraço, que já se posicionou, a liderança do senador Magno Malta (PR) e a musculatura do PDT do ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal. Magno Malta seria um terceiro candidato? Ou apoiaria quem? E o PDT? E ainda tem o PT, o partido mais organizado do Brasil, mas que no Espírito Santo desidratou política e eleitoralmente. Para aonde vai o PT? Enquanto isto, o empresariado só observa.
Tem muita água ainda para passar debaixo da ponte. E muitas nuvens ainda a serem formadas. Mas o fato é que Ricardo Ferraço provocou uma “boa confusão” no mercado político e no tabuleiro eleitoral. O seu lastro político-eleitoral e a sua experiência como político e como gestor serão, certamente, de grande valia para a candidatura de Renato Casagrande. Com ele, a infantaria de Casagrande fica mais eficaz. E a artilharia fica mais potencializada.
Ao fim e ao cabo, se Renato Casagrande e Paulo Hartung, dois líderes políticos de muito lastro e muita experiência, realmente se posicionarem para bater chapa, quem vai ganhar é a democracia e o Espírito Santo. Nem unanimidade, nem bonapartista.

