No Brasil estão acontecendo coisas até há pouco impensáveis. A que parecia totalmente improvável: a condenação de executivos de empreiteiras como a Camargo Correa Construções, desde os anos 1950 presente no panorama das grandes obras públicas como a construção de Brasilia, a ponte rio Niterói, Itaipu, o Metrô de São Paulo etc.
No duro, no duro, não se deve pensar mais na CCC como uma simples empreiteira e, sim, como um grupo econômico de grande porte e altos interesses nas áreas de cimento e energia. Algo como um grupo Votorantim ligeiramente menor, pois de origem mais recente.
Mas o que dizer da Odebrecht, que domina o setor petroquímico? A construtora é grande, mas o grupo Odebrecht é gigantesco. E temos na “lista do mal” outras empreiteiras de extração mais recente, como a baiana OAS, que se criou à sombra do governador e senador Antonio Carlos Magalhães, o vice-rei do Norte.
Por uma ironia da História, ficou fora do rolo o megaempreiteiro Olacyr de Moraes, recentemente falecido. Fundador da Constran, que chegou a ser uma das dez maiores empreiteiras de obras públicas do Brasil, ele fez sucesso como plantador de soja e chegou a ter um banco de médio porte (Itamarati), mas quebrou sufocado pelas dívidas da construção da Ferronorte, vítima da perseguição de políticos paulistas que não lhe deram licença para chegar ao porto de Santos. Visionário sem força política no regime democrático, acabou tendo de repassar sua construtora para seus executivos. Se algum dia comprou alguém, não se divulgou; o que ficou patente é que aos setenta e tantos anos gostava de aparecer em restaurantes paulistanos com lindas moças contratadas by leasing.
Se levantarmos os nomes dos envolvidos nos escândalos Lava-Jato (propinas para assegurar obras públicas) e Zelotes (propinas para obter o perdão por dívidas com a Secretaria da Receita Federal), estará formada a lista preliminar da fatia mais fofamente corrupta da grande plutocracia brasileira.
Dos maiores frequentadores dos rankings das grandes empresas nacionais não escapa quase ninguém: lá estão o Bradesco, a CCC, o Gerdau, o Itaú, a OAS, a Odebrecht e a RBS. Isso tudo sem falar do flamantemergente Eike Batista, que saiu de campo içado pelos guindastes de sua própria megalomania.
Quando se fala dessa turma de alto coturno e colarinho alvo, é praticamente impossível não recordar Antonio Ermírio de Moraes, que morreu há alguns meses. Ele saiu de cena absolutamente isento da pecha que atinge seus antigos pares do empresariado nacional. Antonio Ermírio era um sujeito meio tímido mas dado a arroubos de exibicionismo, como quando, em palestras ou entrevistas à imprensa, se punha na lousa a debulhar equações matemáticas sobre fatos triviais da vida econômica. Desde que se formou engenheiro metalúrgico na Colorado University, nos States, ganhou fama de gênio. Depois de trabalhar 12 horas por dia nas suas empresas (aço, cimento, mineração, banco, celulose), dava expediente na Beneficência Portuguesa, da qual foi provedor por vários anos. Chegou a ter veleidades políticas – foi candidato a governador de São Paulo no fim da ditadura militar –, mas não conseguiu os votos que esperava e voltou à vida empresarial. Não há menção a seu nome em qualquer falcatrua ou irregularidade.
Impõe-se a pergunta: se tivesse uma empreiteira de obras públicas, o grupo Votorantim estaria enredado em alguma das investigações em curso?
Aí parece estar o X da questão: tanto no caso da Lava-Jato como da Zelotes, a imoralidade reside no vínculo das empresas com os agentes da administração pública.
Incluamos o Mensalão em nosso raciocínio e veremos figuras de proa do mundo político, desde ministros até deputadinhos de legendas de aluguel.
É de supor, portanto, que tais jogadas existem desde os tempos das ferrovias do Barão de Mauá ou da construção de quartéis por Roberto Simonsen nos anos 1920 ou das obras de Brasília nos anos 1950 ou da Paulipetro nos anos 1970 etc.
O que podemos concluir por enquanto é que finalmente o sistema policialjudiciário brasileiro chegou às fontes da corrupção, como cobrava o senador Pedro Simon na época da CPI da Corrupção, 20 anos atrás. “Cadê os corruptores?!”, bradava o senador gaúcho, hoje aposentado.
Mais do que nunca, está ficando claro que o empresariado brasileiro faz muita coisa mas também rouba, no que conta com a ajuda jeitosa de funcionários públicos e a conivência esperta de políticos.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O respeito irrefletido pela autoridade é o maior inimigo da verdade”
Albert Einstein (1879-1955)