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‘O Estado sou eu’

Como aconteceu com o projeto Escola Viva, imposto drasticamente goela abaixo da sociedade, sem consulta prévia a professores e alunos diretamente afetados, o governo Paulo Hartung celebra novo momento do seu autoritarismo. Ele fez o repasse de R$ 3,16 milhões à Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), para convênio firmado com entidade de natureza privada, que deverá utilizar o dinheiro, de janeiro de 2018 a maio de 2020, no Programa de Formação de Lideranças na Área de Educação. Esse programa treina universitários recém-formados que substituirão professores em escolas públicas da periferia. 
 
Nenhum debate com as partes interessadas. Desprezo total pela sociedade civil. É o emproado absolutismo hartunguista, em que o Estado é tudo e a sociedade totalmente irrelevante, levado ao mesmo paroxismo do Ancient Régime, em que Luiz XIV, o auto-intitulado rei-sol da França, proclamava para seus súditos: “L’état c’est moi”(O Estado sou eu). 
 
Claro: com Hartung, o despotismo vem embalado por campanhas publicitárias de exaltação às ações do seu governo, para as quais foram reservados R$ 162 milhões neste ano eleitoral de 2018, oito vezes maior do que os gastos em 2015, seu primeiro ano de governo.
 
Pagando importância de tal vulto a uma entidade recém-chegada ao mercado educacional, com o respaldo de uma instituição americana, Hartung aparentemente pretende inovar. 
 
Ocorre, porém, que a iniciativa não passa de transferência de recursos públicos a uma empresa privada travestida de “organização social” gestada na cultura do lucro máximo. Como aconteceu, aliás, na contratação do Instituto de Gestão e Humanização (IGH) para administrar um hospital infantil em Vila Velha onde, em pouco tempo, morreram seis bebês prematuros devido à troca de profissionais qualificados que ali atuavam há anos por mão de obra barata.
 
Além do mais, a Ensina Brasil não tem qualquer responsabilidade pela remuneração dos jovens a serem alocados nas escolas da periferia. Caberá ao governo o pagamento dos salários. 
 
Supõe-se que Hartung, aparentemente, pretenda economizar na folha de pagamento dos professores. É o primeiro ponto a se pensar em se tratando de um governo que por três anos adotou austero receituário neoliberal baseado no enxugamento dos gastos para equilibrar receita e despesa, mas que acabou resultando em prejuízos para os servidores públicos, com salários achatados, e a população em geral, devido à deterioração dos serviços prestados pelo Estado.
 
Não se sabe exatamente, porém, qual será o total da folha de pagamento dos universitários treinados. Não serão poucos, porque o projeto da Ensina Brasil é ambicioso: “transformar a educação no Brasil contribuindo para a igualdade de oportunidades”, como diz sua cofundadora, Érica Butow.  
 
E por mais nobre que seja esse propósito, é inegável que sua mão de obra não está à altura. Afinal, os universitários treinados não têm curso de licenciatura plena, ou seja, não possuem capacitação como professores de educação básica e infantil, geralmente oferecidos por universidades e instituições não universitárias, como o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) – neste caso, totalmente gratuito. E, adicionalmente, eles vão substituir os chamados DT's, professores de designação temporária com mais qualificação profissional. 
 
Como Hartung se esmera em ignorar qualquer debate democrático com a sociedade – e ele o fez, com total indiferença, até quando aumentou os índices de sucateamento da educação, fechando 50 escolas ao longo do seu mandato – ,não se deve esperar de sua parte qualquer preocupação com a qualidade de ensino. 

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