Houve um tempo em que as empregadas domésticas eram uma constante em quase todo lar brasileiro. Que ainda existem, existem, mas tem que pedir ajuda ao santo pra encontrar. Encontrando, tá caro manter. Entre as muitas que suportei e me suportaram nos meus distantes tempos de filhos pequenos, uma que ficou no disco rígido da memória foi Vivina.
Vivina parecia uma daquelas vastas baianas vendedoras de quitutes nas escadarias da Igreja do Bomfim. Talvez até tenha sido uma. Gingava inquieta pela cozinha, as volumosas formas realçadas pelos vestidos amplos e floridos, e de suas mãos ágeis nasciam as mais deliciosas iguarias – razão única de ignorarmos suas esquisitices.
Pois Vivina era contumaz macumbeira. Estamos num país livre e nada mais justo que a moça perpetuasse a velha seita trazida por seus antepassados do continente negro, mantendo-se fiel à fé que sobreviveu à travessia do Atlântico, às agruras do cativeiro, às severas leis do senhor, à vigilância das sinhas e ao passar do tempo, até à intolerância e preconceitos de nossos dias.
Mas Vivina era um pouco exagerada na sua missão de perpetuar a religião milenar de seu povo, e as complicações não demoraram a aparecer. Velas acesas e garrafadas suspeitas eram uma constante pelos corredores do nosso edifício. As demais domésticas do condomínio, sabendo-se alvo dos misteriosos despachos, vinham bater na minha porta, exigindo explicações e muitas vezes chegando às vias de fato.
A tal ponto chegou a troca de palavrões, tapas e despachos, que esqueci as virtudes culinárias da moça, acertando-lhe as contas. E passei um longo período de dificuldades caseiras, sem conseguir uma substituta para a mística Vivina. Uma ou outra que encontrava, ficava alguns dias e logo desaparecia sem dar explicações.
Já me desesperava com tanta falta de sorte quando o porteiro do prédio me revela que a imperturbável religião da Vivina estava agindo por trás dos bastidores – a todas que eu empregava ela abordava numa esquina, ameaçando fazer um ‘serviço infalível’ para lhes atazanar a vida se permanecessem comigo.
A última contratada já arrumava as malas, alegando ter que ir cuidar de um tio doente em Guaçuí. Tentei demovê-la da viagem, explicando as mil e uma teorias que reduziam a macumba a uma inofensiva válvula de escape de povos ignorantes. Debalde. Ela se foi e meu pobre apartamento parecia ter dependurado na porta aqueles sinistros panos verdes usados antigamente para indicar doenças contagiosas: ninguém se aproximava.
Já desesperada, precisei improvisar uma solução para o problema. E eu que nada sei sobre mandingas e pais de santo, curandeiros e feiticeiros, cerquei na esquina a vingativa Vivina e expliquei-lhe que, se ela não deixasse em paz minhas empregadas, eu encomendaria um despacho violento para acabar com seu caso com o Juca Pé Grosso. No que, aliás, lhe teria feito um grande favor.
A próxima auxiliar que contratei ficou comigo por muitos anos. E as muitas inimigas que a Vivina tinha facilidade de espalhar por onde andava vinham me perguntar o que eu havia feito para que a coitada tivesse tanto medo de mim. Não se usa o próprio veneno para curar a mordida da cobra?

