Salvo reviravolta imprevisível a esta altura dos acontecimentos, Dilma Rousseff não voltará à presidência da República. Na primeira semana de agosto, se tudo correr de acordo com o roteiro do impedimento constitucional, ela se tornará, oficialmente, ex-presidente.
Foi tirada do tabuleiro por uma inacreditável súcia de enxadristas liderada por Eduardo Cunha, mas caiu também por uma mistura de erros de cálculo, excesso de confiança e falta de jogo de cintura política. Isso sem contar o desgaste do modo petista de governar após 12 anos.
Cabe então perguntar: qual o futuro político da militante esquerdista mineira que se formou economista no Rio Grande do Sul e ali iniciou uma ascendente carreira no serviço público?
Tendo chegado ao topo por uma rara combinação de méritos técnicos, determinação pessoal e votos carreados por Lula, Dilma se aproxima dos 70 anos com a possibilidade de desfrutar de alguns prêmios de consolação:
– Uma boa aposentadoria e o direito a algumas mordomias garantidas a ex-presidentes
– A possibilidade de sair pelo mundo dando palestras sobre erros e acertos da esquerda no Brasil
– Considerar (e recusar, provavelmente) convites para concorrer a cargos legislativos
– Montar um escritório de consultoria técnico-política
– Liderar empreendimentos como a implantação de usinas eólicas no litoral gaúcho ou uma pequena central hidrelétrica no vale do rio Taquari, no RS
Fácil falar agora que Inês é (quase) morta, mas o fato é que Dilma nunca foi política, no sentido convencional dessa palavra associada a conchavos, formação de camarilhas e organização de trambiques.
Até na escolha (!) do vice-presidente Dilma foi menos feliz do que Lula. O ex-líder sindical teve no empresário José de Alencar e Silva um exemplo de integridade de caráter. Já o vice de Dilma configurou-se como um dos principais impostores do PMDB, partido rico em figuras pouco confiáveis, embora consagradas nas urnas.
Não sendo uma figura política convencional, a presidenta Dilma deixou colar em si a imagem de gerenta mandona, impaciente e irritadiça. Nisso estava seu charme, sua força. Aí também esteve sua vulnerabilidade como presidente. É possível que esse perfil técnico-gerencial possa até ajudá-la a alavancar uma carreira empresarial ou palestrante.
Se não tem futuro na política eleitoral, a ex-presidente parece possuir cacife suficiente para trabalhar, por exemplo, como consultora econômica na área energética. É de duvidar que monte um escritório de lobby, mas parece plausível a hipótese de que se dedique a palestras internacionais sobre o Bolsa Família, o Pronatec e outros projetos exemplares para países subdesenvolvidos.
Nesse sentido, montará um instituto semelhante ao de Lula ou FHC? Quem sabe uma Fundação Dilma? Quem viver verá.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós: e isto é possível a cada um. Mas o que resulta disto em relação ao todo? Parecemos carneiros a brincar sobre a relva, enquanto o açougueiro já está a escolher um ou outro com os olhos, pois em nossos bons tempos não sabemos que infelicidade justamente agora o destino nos prepara – doença, perseguição, empobrecimento, mutilação, cegueira, loucura, morte etc.”
Arthur Schopenhauer, em Contribuição à Doutrina do Sofrimento do Mundo

