Dólar Comercial: R$ 5,31 • Euro: R$ 6,00
Quarta, 12 Agosto 2020

​O 'grande irmão'

Como se não bastassem os desatinos em torno da pandemia do novo coronavírus praticados por Bolsonaro e sua equipe de desastrados, o Brasil ganhou mais um ingrediente na extensa lista motivo de opróbrio para toda a nação consciente. É o "dossiê sigiloso" no qual estão inseridos, por enquanto, 579 servidores federais e estaduais de segurança identificados como participantes do movimento antifascismo. A revelação da operação foi feita no portal Uol, identificando o ministro da Justiça, André Mendonça, como o mentor das ações. 

De coordenador dos acordos de leniência negociados entre o governo federal e empresas acusadas de desvios, o advogado e pastor presbiteriano André Mendonça, até bem pouco tempo servidor de carreira da Advocacia-Geral da União (AGU), foi chamado a assumir o Ministério da Justiça, por ser doutor em Direito, embora a formação acadêmica conte pouco nos círculos presidenciais, mas levando em consideração, principalmente, sua condição de "terrivelmente evangélico".

Começava ali, depois do bizarro quiprocó entre o ex-juiz oportunista e parcial Sergio Moro e Jair Bolsonaro, a atuação do "grande irmão", nos mesmos moldes dos profetizados por George Orwell no seu "1984", a retratar o totalitarismo de um governo opressor, incapaz de sentir a dor dos outros. Basta ver o comportamento do governo em relação às mortes pela Covid-19.

A partir de sua nomeação do "terrivelmente evangélico", o Ministério da Justiça passou de órgão de Estado para se transformar em um apêndice do governo, ou melhor, do presidente, pouco importando se isso é inconstitucional ou não.

Todos correm risco. O primeiro dossiê foi endereçado, de acordo com a reportagem, a órgãos públicos como Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Casa Civil da Presidência da República, Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Força Nacional e administrações públicas estaduais. Ou seja, estabeleceu-se um cerco a pessoas que defendem a democracia e se posicionam contra manifestações antidemocráticas estimuladas pelo presidente da República.

Cria-se dessa forma um modus operandi de perseguição a servidores públicos, em explícita afronta à Constituição Federal, com o uso da máquina do Estado em defesa de ideologias e práticas totalitárias. Transforma o Ministério da Justiça numa espécie de Ministério da Verdade do livro de Orwell, a fim de escamotear a realidade e colocar movimentos antifascistas debaixo da ameaça de uma polícia política mantida com dinheiro público.

Um viés perigoso, cujo desfecho fica no campo do imponderável, mas com exemplos históricos cruéis como a Itália de Mussolini, a Alemanha de Hitler, e o Brasil da ditadura militar de 1964. Conviver com uma nação conscientizada, com capacidade crítica, é inaceitável para os que defendem ditaduras e se escondem no bom-patriotismo, nas ações de gente bem, em fervorosos credos religiosos como formas de opressão social.

Como no romance "1984", a distopia de Orwell, o Brasil se cerca de engenhocas totalitárias visando sufocar o pensamento crítico e, pela via da violência, tornar a vida mais perversa e desigual. Mais grave é que diante desse cenário sejam observados apenas tímidos protestos, que não encontram a ressonância esperada, incluindo nessa relação agentes públicos de todos os níveis, mais preocupados com seus redutos eleitorais.

Em momentos como esses, só o grito das ruas pode mudar o quadro e evitar que o "Grande Irmão", grafado com maiúsculas, construa um regime de força, como no livro, onde todos são vigiados, e punidos, e onde o amor é proibido em uma sociedade robotizada, como já acontece em círculos bolsonaristas.

Veja mais notícias sobre Colunas.

Veja também:

 

Comentários: 2

Guilherme Pereira em Quinta, 30 Julho 2020 15:06

Excelente reflexão ao mesmo tempo um alerta a mais sobre a desconstrução em curso de tudo que representava entre nós brasileiros avanços civilizatórios.

Excelente reflexão ao mesmo tempo um alerta a mais sobre a desconstrução em curso de tudo que representava entre nós brasileiros avanços civilizatórios.
DANIEL FERSTL FERREIRA BASTOS em Sexta, 31 Julho 2020 08:50

Ser antifacista sempre foi uma virtude! Mas na era Bozo....

Ser antifacista sempre foi uma virtude! Mas na era Bozo....
Visitante
Quarta, 12 Agosto 2020

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://www.seculodiario.com.br/

No Internet Connection