Amaríamos em dobro ou sofreríamos três disritmias?
Antonio Altoguedes precisava urgentemente de um transplante de coração: o dele não estava mais suportando as decepções que a vida moderna nos impõe. Como não faltam acidentes trágicos nesse mundo, surgiram duas ofertas: o coração de um atleta de 21 anos que morreu atropelado e o do banqueiro de 90 anos que atropelou a bicicleta, perdeu o controle e bateu num poste. Como os dois corações eram compatíveis, Antonio pôde escolher, e não teve dúvidas.
*
Os médicos ficaram surpresos com a escolha: por que não usarmos o coração de um jovem, além do mais atleta, portador de muitas medalhas de ouro, e que obviamente vai durar muito mais? Antonio foi categórico: o coração do banqueiro vai durar mais porque nunca foi usado. Essa história não é nova, mas só hoje soube do desenlace: Antonio completou noventa anos e continua doando milhões para o ballroom da Casabranca.
*
O que me chamou atenção nesse caso é a injustiça que a natureza nos impôs: sendo o coração um órgão tão importante no organismo humano, por que fomos agraciados com apenas um, quando o polvo, esse estranho sujeito que ronda solitário pelos mares ganhou três? Ah, o que faríamos nós se tivéssemos também três, ou pelo menos dois corações? Amaríamos em dobro ou sofreríamos três disritmias?
*
Diz o vulgo, esse persistente anônimo, que duas cabeças pensam melhor que duas, se soubermos usar o cérebro, claro. Eu tenho apenas um, e quanto mais uso, pior fica. Se tivesse três estaria recebendo o Nobel, e juro que não iria doar minha medalha de ouro… você sabe para quem. Os polvos, no entanto, segundo alguns estudos ainda não confirmados, têm três cérebros acumulando 500 milhões de neurônios, enquanto Antonio já acumulou 500 milhões de euros.
*
Nada que se compare ao ser humano, com seus 96 bilhões de neurônios, a maioria dos quais nunca usados. Mas se os polvos vivem apenas dois anos, por que ganharam tantos, se nem terão tempo de usar? Pois esse navegador solitário está entre os animais mais inteligentes da terra, e talvez até pudéssemos aprender algumas coisas com eles.
*
Antonio, que quando não está contando dinheiro cria polvos em um gigantesco aquário, também é fã de um Polvo à la Provence trazido da Itália, claro. Tão solitário quanto esses estanhos habitantes dos mares, sua única distração é espionar a vida de um certo Benezer Ligate, que viveu com o coração que Antonio rejeitou. Atleta frustrado, sem jamais vencer nenhuma competição, produziu grande família, mesmo tendo falecido antes dos trinta. O banqueiro sustenta todos os descendentes anonimamente – o único ato caridoso que praticou na vida.

