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O império da financeirização

Jovens economistas brasileiros e de outras partes do mundo estão acordando para um fenômeno que sacrifica atualmente os países pobres e medianos: o processo da financeirização, que consiste na aplicação de juros compostos sobre dívidas de países, empresas e pessoas. Pobres e medianos, que são a maioria da população do planeta, estão submetidos ao jugo dos ricos, que estão em minoria, mas são organizados e espertos.
 
O Brasil está atolado até o pescoço por essa onda que sufoca os devedores e os transforma em escravos crônicos dos impérios globais que ditam a financerização. O mais grave: os bancos brasileiros são cúmplices desse processo de rapina. E o pior de tudo: as autoridades monetárias brasileiras estão do lado dos credores internacionais ao sustentar juros altos para o pagamento da dívida nacional.  
 
Por tudo isso faz sentido a campanha da economista Maria Luiza Fatorelli, que vem realizando palestras em que reclama a abertura de uma auditoria da dívida externa brasileira. Sua audiência está aumentando, mas não há ainda um horizonte para que a auditoria comece. Trata-se porém de algo que, mais dia, menos dia, terá de ser feito para que o Brasil se liberte da escravidão financeira que transfere para meia dúzia de bancos e algumas centenas de especuladores a maior parte do esforço produtivo nacional.
 
O processo de financeirização não se aplica apenas aos passivos monetários. Ele também vige sobre os recursos naturais. É nesse terreno que o bicho pega pra valer, como explica a economista Amyra El Khalili, especialista em commodities ambientais: “Na natureza, a prática da ‘financeirização’ vincula os direitos fundamentais do ambiente saudável e o direito à vida ao criar mecanismos de pagamento por tudo aquilo que a natureza produz gratuitamente. A natureza nos fornece água, ar, terra, minérios, biodiversidade (florestas, fauna e flora) e não cobra por esse benefício providencial. No entanto, para que possamos ter água em quantidade e qualidade, ar puro para respirar, terra boa para plantar, plantas medicinais para curar, rios e mares para nos banhar e nos abastecer, com a ‘financeirização da natureza’ teremos que pagar para ter o que sempre tivemos por direito inalienável.”
 
A economista prossegue: “Os que propõem a ‘financeirização da natureza’ argumentam que, sem pagar, não é possível manter as florestas em pé, ter rios limpos, ter a cidade limpa de resíduos sólidos, possuir terra sem agrotóxico e químicos, ter o ar respirável sem reduzir gases tóxicos, enfim, afirmam não ser possível preservar e conservar o meio ambiente sem que os bens comuns (água, minério, solo, ar, biodiversidade) se tornem produtos financeiros. Alegam que estão financiando a transição de uma economia marrom (degradadora) para a ‘economia verde’. Dizem que não existe alternativa, senão a de tornar financeiro o que é eminentemente econômico. Confundem conceitos e posições para que a população, sensibilizada com as justas causas socioambientais e desavisada dos riscos,  aceite o pacote financeiro imposto com a legalização da ‘agiotagem institucionalizada’ e de outras práticas criminosas, como a biopirataria, os royalties por sementes, o roubo de terras de povos indígenas e tradicionais, a expulsão de camponeses, o controle da água e do ar por oligopólios, a produção de alimentos industrializados, institucionalizando a ‘dependência da sobrevivência’ da espécie humana e demais seres vivos.”
 
Conclusão de Amyra El Khalili: “Os povos indígenas, tradicionais,  os campesinos e as populações carentes do sertão, que sabem lidar com o ambiente natural e sua diversidade, têm muito a nos ensinar, sem  nunca terem precisado  de agentes financeiros, especialistas ou consultores ambientais para lhes vender pacotes de produtos e serviços. Aliás, os banqueiros jamais tiveram interesse em suas possíveis contas!”
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
“É impossível reconhecer um caminho falso, se não se conhecer o verdadeiro”
J. Gurdjieff (1866-1949)

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