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O lobista

Maria, 12 anos, analfabeta, filha de lavradores, veio do interior para trabalhar na casa do  dono do sítio onde o pai era caseiro. Pra cuidar das crianças.  “Aqui no mato nunca vai ser ninguém”, diz o patrão pro pai da menina. “Vai ter casa, comida farta e escola”. Serviço nunca faltou, mas salário nunca viu e a escola prometida também não conheceu. O patrão morava em bairro nobre, escola por perto, só particular, e pegar ônibus pra escola pública tomava muito tempo.
 
Maria, 18 anos, analfabeta, um dia arruma as malas e sai sem se despedir. As crianças já não precisavam de babá, mas nem por isso o serviço diminuiu, e salário nunca viu. A cozinheira da casa lhe arranjara emprego com salário e folga no fim de semana. Tudo em segredo de estado, “Num conta que eu arranjei ou me mandam embora”. Preocupada, Maria pergunta se contou que não sabia escrever. “Ora, num vai fazer lista de compra nem cuidar da correspondência”.
 
Foi e não se arrependeu, menos trabalho e dois mínimos no fim do mês, com liberdade de ir e vir quando bem entendesse, sem ter que dar satisfação a ninguém. O patrão morava sozinho e raramente aparecia, só queria a casa limpa e as camisas passadas, e nunca comia em casa, só em restaurantes finos, “Meu trabalho é feito na hora das refeições”, dizia.  E como sobrava tempo, Maria foi pra escola. Antes tarde do que nunca!
 
A igreja perto do edifício onde trabalha tem um curso de alfabetização para adultos administrado pela prefeitura local, noturno e gratuito. Melhor impossível! Maria se matricula e fica surpresa ao ver que o curso tinha problemas com excesso de alunos, e não com escassez, como achava que seria –  as classes estavam superlotadas de pessoas ainda mais velhas que ela. “Pensei que era só eu…” As professoras riem para não chorar, “Quem nos dera, Maria!”
 
O Brasil é o oitavo país do mundo em analfabetismo, com 14 milhões de analfabetos, sem contar os semi-analfabetos. Pior, 38% dos analfabetos latino-americanos são brasileiros. O país campeão de analfabetismo é a Índia, com 287 milhões; em segundo a China, com 52 milhões. Uma diferença gritante, pois a China tem a mais gente. Esses dados da Unesco são de 2012, e nesses três anos com certeza nada melhorou.  
 
Decidida a recuperar o tempo perdido, Maria aprende depressa, e se sente realizada. Na sexta-feira o patrão a leva ao supermercado para as compras da semana – ela enche o carrinho, ele espera; ele paga, ela carrega. E desta vez Maria tem uma agradável  surpresa – “Que legal! Nas placas penduradas no teto dos corredores tem a lista dos produtos  nas prateleiras…” Mais surpreso, porém, fica o patrão, “Você sabe ler?”
 
No sábado Maria recebe as contas, “Vou fazer uma longa viagem…” Maria arranjou outros empregos, claro, mas nenhum tão bom, e nunca entendeu porque foi mandada embora, principalmente depois que aprendera a ler. O que a escola não ensinou é que o doutor lobista para quem trabalhava não queria correr o risco de ter alguém que soubesse ler remexendo sua papelada altamente confidencial – listagem de propinas hoje em dia pode dar cadeia.

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