No encontro dos governadores com o presidente Michel Temer, na última segunda-feira (20), para discutir as dívidas e o socorro aos estados, Paulo Hartung criticou duramente a iniciativa do governo federal. Ele se considera o único governador aplicado, que tem feito o dever de casa com a disciplina e o rigor que o momento exige. Mas isso não é reconhecido quando o governo aparece com um pacote de bondades que beneficia a todos, mesmo os “maus alunos”.
Ao sair da reunião pisando alto, Hartung soltou expressões como essas: “Quem faz o ajuste fiscal é prejudicado”; “É a pedagogia reversa que beneficia quem não fez o dever de casa”. Quem ouve tamanha indignação, mas que nunca pôs os pés no Espírito Santo, deve ficar penalizado e pensar. “Nossa! É um abnegado, pregando sozinho no deserto”; “Ele tira leite de pedra para economizar, e no final das contas os ‘perdulários’ também são beneficiados”.
O que Paulo Hartung não revela é o preço da austeridade a qualquer custo. Quem vive no Estado está insatisfeito com a política de arrocho de Paulo Hartung. A lista é grande: servidores estaduais; prefeitos, que estão com as obras dos municípios paradas; e até os deputados, que devem manter o orçamento 2017 da Assembleia congelado. Todos estão sentindo a asfixia do arrocho.
Mas os cortes do governo são ainda mais sentidos nas áreas consideradas essenciais: segurança, saúde e educação. A guilhotina afiada de Hartung não tem poupado nem mesmo essas áreas. O Estado enfrenta problemas na saúde, com servidores insatisfeitos com os baixos salários e a falta de infraestrutura de trabalho para assegurar um atendimento digno à população.
Na educação, a vitrine do Escola Viva não conseguiu tapar os problemas estruturais da rede pública de ensino. As “escolas chatas”, como disse o secretário de Educação Haroldo Rocha, estão caindo aos pedaços, necessitando de reformas urgentes. O combativo deputado Sérgio Majeski (PSDB) tem denunciado sistematicamente na Assembleia o abandono das escolas.
A propósito, Majeski criticou o governador Paulo Hartung, que saiu da reunião com Temer desdenhando dos R$ 70 milhões correspondentes ao valor cujo Estado teria carência de pagamento com o pacote de socorro do governo federal. Para o deputado, o valor desprezado pelo governador daria para reformar diversas escolas ou construir pelo menos 30 novas unidades.
Mas a marca do corte que mais impressionou esta semana ocorreu na segurança. Denúncia feita por policiais de Barra de Francisco revelam uma situação alarmante, porque envolve vidas humanas. O comandante do 11º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Mário Dalcol, determinou que os militares lotados naquele batalhão devolvessem as placas dos coletes balísticos ao final do plantão.
Na prática, funciona assim. Os PMs ficam com a capa do colete e revezam as placas blindadas. Os coletes têm duração média de cinco anos. Após esse período, o fabricante não garante mais a eficiência do equipamento. Como o governo não está repondo os coletes balísticos — a maioria está vencida —, a solução encontrada pelo batalhão foi o revezamento.
Pior, essa situação, não se restringe apenas ao batalhão de Barra de São Francisco. A Associação de Cabos e Soldados diz que tem recebido queixas de policiais de diversos batalhões do Estado sobre a falta de coletes. O caso também foi denunciado pela Associação Geral dos Militares do Estado, que pediu abertura de inquérito no Ministério Público.
Por trás da polêmica dos coletes está a política de austeridade do governador Paulo Hartung, que tem sido irredutível no corte de gastos. Os secretários, pressionados, seguem à risca a política do chefe, e acabam fazendo a “lição de casa”, mais preocupados com a contabilidade no final do mês do que com as vidas dos policiais, nesse caso em especial dos coletes balísticos.
A explicação é simples. O colete à prova de balas custa em média R$ 3,2 mil. Como o governo não tem feitos as reposições à medida que os equipamentos estão para vencer, a compra acumulada torna a conta salgada, fazendo com que o gestor da pasta adie a reposição e obrigue os comandantes a expor suas tropas a situações absurdas como o revezamento de coletes.
Esse é apenas um caso que mostra o outro lado da política de austeridade do governo do Espírito Santo. Hartung tem se promovido na mídia como o governador exemplar, que não transige para fazer cortes, mesmo que esses cortes ponham em risco vidas humanas. Será que é esse o modelo de sucesso que deve ser seguido pelo resto do País?

