Menara vive uma vida simples e honesta. Faz o bem quando lhe pedem, e nunca prejudicou ou desejou mal a ninguém. Menara, no entanto, nunca reza, na premissa de que todos os santos são, em essência, bons, e sendo Deus onipresente e onisciente, conhece bem nossas necessidades. Não há, portanto, razão para pedir alguma coisa.
Um raciocínio tão simples chamou a atenção do próprio Deus, e um anjo visitou Menara em sonhos, dizendo-lhe que fizesse um pedido. “Tens sido boa e honrada, e vou retribuir sua bondade. Faça um pedido, que seja pessoal e intransferível, e atenderei” Menara põe-se a pensar – o que pediria? Nem mesmo em sonhos lembrava de alguma coisa que lhe fizesse falta.
Posso pedir riqueza, que sou pobre feito passarinho na seca. No entanto, tem gente que tem tudo e não é mais feliz que eu, que nada tenho. Felicidade? Tenho um casamento longo e tranquilo, meus filhos são trabalhadores e me tratam com carinho e respeito. Não é isso que chamam de felicidade? Saúde, então? Mas tenho saúde pra dar e vender, não tenho do que reclamar.
Conheço muitas pessoas que são felizes, mesmo não tendo boa saúde, e pessoas saudáveis que não são felizes, porque não valorizam o que têm. Deus sabe bem o que é bom pra mim, e se me mandar uma doença, vou aceitá-la com paciência e resignação.
Menara pensa por muitos anos, que nos sonhos os anos passam rápido. O que lhe falta que precise incomodar Deus, já sempre tão atarefado com tantas pessoas insatisfeitas nesse mundão sem conserto? Mesmo satisfeita com o que tem, Menara às vezes sente falta de pessoas com quem conversar. Sua casa fica afastada do lugarejo, e o marido labuta na lavoura o dia todo…
Mas moro nessa casa desde que me casei e daqui não quero sair. Aqui meus filhos nasceram e se casaram, aqui espero morrer. Não vou morar em nenhum outro lugar, e não vou mudar a geografia do mundo para satisfazer um pequeno capricho. Menara nada pede e o anjo, cansado de esperar, vai embora.
O dia amanhece e ao abrir a janela, Menara vê que o velho ipê na entrada da casa, que há anos não floreia, explode de repente em flamejante floração. Que estranho! Um carro para na porta; um casal jovem, com duas cianças, vem admirar a bela árvore. As crianças estão com sede, Menara lhes serve água fresca. A moça lhe dá uma caixa de chocolates, “Aceita que temos demais”.
Depois um cavaleiro solitário para também, vem de longe, pede para descansar sob a sombra da rica floração. Diz que tem um jardim em um lugar muito distante, mas nele nunca floresceu uma árvore tão bonita. Antes de partir leva umas mudas, talvez cresçam em sua terra estrangeira. Em troca, lhe dá um cântaro usado. Está indo embora e não vai mais precisar dele.
Depois desse dia, tem sempre um ou dois carros na porta, gente fotografando o ipê, gente dormindo em sua sombra, gente que errou o caminho e não sabe pra que lado seguir, gente apenas admirando tanta beleza… Menara serve um caneco de água da moringa, um cafezinho acabado de passar… Ganha presentes, sorrisos, e ouve muitas histórias sob o ipê que nunca mais parou de florir.

