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Sábado, 08 Mai 2021

​O pequeno jornaleiro

Passa o menino e a rua inteira se anima com seu pregão. "Jornaleiro! Compra o jornal do dia!" Um arco-íris de remendos nos trajes surrados, o riso espontâneo na boca de dentes cariados. "O Diário! A Gazeta! Jornal do Brasil! O que vai pelo mundo! Tudo sobre a guerra no Oriente Médio." Aquele do meio? "Marido que espanca a mulher porque queimou o feijão fez subir o preço do feijão. Apagão em Caratoíra, Arrastão na Praia do Canto! Assalto a mão armada causou quatro mortes. "Faltou uma crase, menino, mas você não sabe ler.

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Você também não sabe, menino, do ódio e da intolerância entre os homens de boa vontade. Viveu tão pouco, mas sua voz sonora invade os casarões com grades nas janelas, anunciando ao mundo que em algum lugar próximo ou distante irmãos se matam por um pedaço de terra, por uma nesga de céu, por um braço de rio. Pelo líquido negro que escorre embaixo do chão.

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"Vejam as manchetes do dia! O governo estuda planos de desenvolvimento para as imensas regiões despovoados do oeste brasileiro." Por acaso você percebe, menino, a disparidade dessas notícias? Seu escasso tempo de vida não capta essas sutilezas, e você caminha pela geografia das ruas - asfalto e terra, sobe aqui desmonta ali, paralelepípedos e lama, sangue e poeira - levando a notícia, "Leiam, leiam! Quadrilha de crianças põe em pânico a população de Vitória!" Ah, menino, que mundo é esse onde meninos da sua idade pegam em armas e são caçados pela polícia?

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Rasgue esses jornais, menino, não espalhe más notícias. Se feio é o mundo que nos rodeia, esconda-o. Por que gritar assim para que todos saibam que a fraternidade é fruto escasso de árvore rara, que a imprensa se banqueteia em sangue e violência, não porque gasta menos tinta de impressão, mas porque é o que sacia as massas.

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Não fale sobre pessoas assassinadas porque pensam diferente, ou têm outra cor na pele, ou falam uma língua que não traduzem. Porque amam diferente, ou talvez porque sofreram injustiças e desforram no mais fraco, no que está ainda mais oprimido. Não conte que mandaram mais tropas para algum país remoto que você nem sabe achar no mapa. Que um soldado morreu longe da Pátria e do carinho de sua mãe. Melhor não falar sobre guerras, mortes desnecessárias, epidemias e pandemias, porque a dor atrai mais dor, a violência multiplica a violência.

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Fale de paz, garoto. Derrame aos ventos as estatística de casamentos que não acabam em divórcio ou em tragédia. Conte que jovens vão para as faculdades porque confiam em um futuro melhor, num mundo mais justo. Fale em poetas e menestréis, cante canções de amor e paz, garoto. Traga-nos com seus jornais e sua juventude a beleza que se derrama ao nosso redor.

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Saia por aí enfeitando as ruas cinzentas com seu riso inocente e as cores alegres da sua roupa surrada. Grite que nos hospitais mães trazem ao mundo crianças sadias, que o sol retorna a cada manhã e a natureza é uma festa de luz e cores. Que apesar de tudo as pessoas seguem em frente, amando e perdoando, semeando e protegendo, porque confiam em um mundo melhor. Talvez assim, menino, os que habitam esse grão de areia perdido na imensidão do universo reparem que a vida é uma dádiva divina e nós temos o poder de tornar o mundo melhor - basta ser melhor.

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