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O perdão mora longe

Perdoar é divino, diz o povo, mas no dia a dia vulgarizamos o pedido de desculpas, por tudo e por nada. Esbarra numa pessoa sem querer, tosse na hora que o padre manda beijar a noiva,  derramou o suco na toalha limpa, tá com pressa e passa na frente dos outros na escada rolante, chegou atrasado mas não muito ao encontro marcado, ao almoço programado, à reunião, à entrevista… Ou não pôde comparecer.
 
Mor das vezes, o perdão solicitado é concedido, se a falta não foi grave e a justificativa é razoável. O que se quer mesmo é a delicadeza de uma explicação. Mas tem quem não perdoe, como o descuidado  Arnesto, no samba do Adoniran Barbosa,  “Nóis fumos não encontremo ninguém… Nóis vortermos cuma baita duma reiva, da outra vez nóis num vai mais”. Quando o Arnesto pediu desculpas eles num aceitemos, “Você devia ter ponhado um recado na porta”.
 
As complicações começam mesmo quando a falta é grave, ou gravíssima. Perdoar jamais! grita Sarita, a ofendida, remoendo os longos anos de amor dedicados à pessoa errada. Foi traída e abandonada, sem maiores explicações e nunca por um bom motivo… A primeira reação é o desejo de vingança… “Ele há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”, bradava Linda Batista no dramático Vingança, do Lupicínio Rodrigues.
 
No entanto, não é a raiva, mas o perdão, que tem o dom de curar a ferida. Mesmo quando quem magoou não pediu e nem quer ser perdoado. No jogo da vida, não se ganha pontos por odiar ninguém, nem o odiado vai perder pontos com o seu rancor. Para a boa saúde física e mental, esquecer e seguir em frente é o melhor remédio. Dizem mas não provam que Shakespeare disse,  Guardar ressentimento  é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.
 
Ou praga de urubu não pega em cachorro gordo. Sarita jogou sobre o ausente pragas piores que as sete pragas bíblicas. E não descansa –  domingo não perde missa, não para pedir a graça do esquecimento ou um melhor substituto para o traidor, mas para pedir que ele seja também traído, que um câncer lhe remói as entranhas, que o Parkinson o faça tremer nas bases. Que o IR devore suas finanças. Só não pede Alzheimer porque não quer que ele esqueça o que fez.
 
Blindado contra tanto azedume, imune às rezas e despachos,  o ex se casou, teve filhos, foi feliz lá do jeito dele, e morreu de velho. Sarita amargou sozinha sua longa vida, nunca mais se permitiu ser feliz, aguando diariamente seu pé de feijão, que cresceu mais do que aquele outro…  Mas teve a sorte de morrer depois dele, e quando lhe contaram que ele havia falecido na poltrona da sala, vendo televisão e sem dar sequer um gemido, gritou, “Estou vingada!” e foi descascar uma batata para o almoço.

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