quinta-feira, abril 2, 2026
28.9 C
Vitória
quinta-feira, abril 2, 2026
quinta-feira, abril 2, 2026

Leia Também:

O pintor

Manhã sem chuva João chega no ponto, tira os quadros das duas pesadas malas e os enfileira contra a parede da velha igreja da praça. O mundo passa apressado e indiferente, rumo aos pontos de ônibus, ao trabalho qtem hora certa, ao banco que não espera, ao médico do SUS, à promoção de alguma loja, ao supermercado, e ignora o homem sentado no degrau da igreja, cercado de imagens coloridas – João é  pintor.
 
Os quadros explodem numa profusão de cores na calçada cinzenta, o cimento rachado, tufos de grama brotando aqui e ali.  Matizes berrantes, formas e imagens que João tira da memória; nunca frequentou escolas, mal assina o nome, nunca ouviu falar em artes plásticas, não conhece estilos e escolas, o que é clássico ou superado, quais as novas tendências, quem são os famosos da vez. João é autodidata.
 
Nos quadros expostos aos olhos do público passante, jovens diáfanas dançam sobre tons de azul que simulam paisagens fantásticas. Ninfas ou fadas que parecem flutuar, sombras apenas, os rostos insinuados, cabelos que se desfazem em ondas arrastando algas e estrelas marinhas… Figuras indefinidas,  pressentidas nos sonhos. João é criativo.
 
João combina as tintas numa miríade de tons e nuances que atraem os  olhares dos transeuntes da praça – seguem eles ocupados demais, preocupados demais, cansados demais, por um breve momento imaginando aquela abundância de cores em suas casas debotadas. Um que outro para e elogia, “Você que pintou? Estudou em qual escola? Devia ser artista. ”  Alguns poucos perguntam o preço…
 
E vão embora, que tal exuberância não combina com suas vidas. De raro em raro um quadro é vendido, depois de muita barganha,  ”Tenho condição não, moço…” Talvez um dia um patrono das artes, ou um jornalista importante repare no pintor na porta da igreja, e faça uma oferta, ou uma reportagem no segundo caderno, ou no noticiário da TV. Talvez um milionário engravatado….  João é otimista.
 
À tardinha o movimento na praça morre devagar. Os ônibus engolem as últimas filas de operários apressados, as donas de casa retardatárias, as comerciárias indiferentes. Um dia a menos no calendário do tempo. João recolhe os quadros devagar, recoloca nas duas malas, esperando que os ônibus passem mais vazios para ir embora. João é paciente. 
 
A mulher o espera com a pergunta de sempre, “Vendeu alguma coisa? Se pintasse paredes ganharia mais dinheiro”. João nunca responde, que a mulher entende de panela vazia mas não entende de sonhos.  As poucas notas amassadas no bolso da calça têm que se esticar para o leite das crianças, o aluguel que já vai vencer outra vez, o botijão de gás… João é malabarista.
 
As malas ficam aguardando o dia seguinte no canto da sala. João toma em silêncio o prato de sopa e engole sem pressa o café com pão sem manteiga. Briga com os meninos que estão brigando pelo último copo de guaraná. A mulher vai dormir, que acorda cedo pras faxinas. João quer pintar, mas a tinta azul acabou, e se não vender um quadro amanhã… “Droga de vida!” resmunga. João é anarquista.

Mais Lidas