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O porto e a revitalização do Centro

A arrogância e a demonstração de que não se importa com a qualidade de vida das pessoas que residem em Vitória foram as marcas registradas da apresentação feita pela Codesa na reunião com o Conselho Estadual de Cultura, que luta para manter acesa uma chama fundamental para resgate de nosso patrimônio histórico cultural, ao qual estão absolutamente integrados os armazéns e prédios da Codesa, além do próprio cais, que no século passado permitiu que fossem apagados vestígios importantes da própria história do porto, como as passagens do imperador D. Pedro II em sua histórica viagem ao Estado no século 19, e as visitas do ditador e depois presidente Getúlio Vargas.
 
O projeto apresentado pela Codesa ao Conselho foi questionado tanto por conselheiros como pela população presente ao encontro realizado na Biblioteca Pública Estadual. Estava nitidamente fora de contexto, não só a definição da cidade como “prioritariamente portuária”.  Entre os dados e ofertas ressaltados pela Codesa como benefícios aos capixabas,  tudo passou ao largo do objetivo do Conselho: conservar a história da cidade e garantir o bem-estar dos moradores. 
 
Está mais do que correto o conselheiro Fraga Ferri, este projeto vai asfixiar a cidade. Vale repetir seus questionamentos publicados em matéria de Século Diário desta sexta-feira (4): “Quem foi que definiu que a cidade tem que ser um grande porto? Quem decidiu essa vocação? É necessário lembrar que a cidade já estava aqui, sobrevivendo, muito antes do porto. Para quê e para onde vai toda essa riqueza? Não é para a cidade”.
 
Torna-se ainda mais séria a questão, o fato de o projeto ter sido apresentado ao conselho sem qualquer discussão com a comunidade. Afinal, os armazéns do Porto de Vitória passam por um processo de tombamento desde 2011, e portanto, as estruturas não podem sofrer qualquer alteração até o final desse processo. E, caso o tombamento seja aprovado, tudo deverá ser preservado em benefício da cultura capixaba e da preservação do nosso patrimônio histórico. 
 
O tombamento diz respeito a todos os galpões do porto, e portanto, e não podem ser demolidos ou utilizados pelo Sistema BRT. Os conselheiros cobraram uma posição da Codesa, que desde 2011 ignora o ofício encaminhado sobre o tema. 
 
Não há a necessidade de demolir os galpões para ampliar o pátio de estocagem do Porto de Vitória, sobretudo porque a cidade não comporta e não quer tamanho empreendimento. Com um agravante: o rompimento da identidade da população com o Centro se dará em benefício de um projeto com menos de 20 anos de sobrevida.
 
A intenção dos que sonham com uma Vitória com maior qualidade de vida é voltar a cidade para o mar, como se vislumbra a partir da Avenida Beira Mar. Mas se o Estado projeta portos e superportos para implantação nos próximos anos, parece desconhecimento e desamor por Vitória, insistir num projeto que não tem a importância econômica, afetiva e social para quem mora no local. Algo realmente na contramão dos novos tempos de democracia que desejamos ver vigorar na ilha delícia sonhada pela cronista Carmélia M. de Souza. 

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