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O predador

Em comparação aos seus dois primeiros mandatos (2003 a 2010), Paulo Hartung retrocedeu anos luz na sua estratégia de enfrentar adversários no campo da política. 
 
É notório que o modus operandi de Hartung sempre transitou na contramão da ética. Seu retrospecto, sobretudo nos dois primeiros mandatos, lhe conferiu a fama de temida figura da política capixaba. Na história recente do Espírito Santo, são raras as lideranças políticas que ousam enfrentá-lo. 
 
Mas o Paulo Hartung deste terceiro mandato – que ironicamente tentou construir sua campanha em cima do abraço de um Paulo mais humano, mais próximo do povo – tem extrapolado todos os limites na sua obsessão de abater sumariamente quem atravessa seu caminho. 
 
Quando decidiu disputar a eleição contra o então governador Renato Casagrande (PSB), num claro golpe de traição ao acordo por eles firmado, Hartung teria construído com seus marqueteiros uma lista de ameaças que poderiam desestabilizar sua campanha. Na “lista negra” do então candidato, Século Diário, que sempre assumiu posição crítica aos seus dois governos, era uma ameaça a ser eliminada ou, ao menos, neutralizada. 
 
Durante e depois das eleições, Hartung intensificou suas manobras para fechar o jornal. A estratégia se concentra em dois tipos de asfixia: jurídica e financeira. 
 
A jurídica passou a ser usada ainda no primeiro mandato e se intensificou no segundo. Em seus dois primeiros governos, Hartung, para não deixar digitais, recorria a terceiros para processar o jornal. Mas não eram quaisquer terceiros. A tarefa era encomendada a pessoas influentes, geralmente juízes e membros do Ministério Público. Esse, aliás, é um expediente que continua sendo usado até hoje. 
 
Neste terceiro mandato, porém, o próprio Hartung resolveu partir para cima do jornal. Ele passou a acionar pessoalmente Século Diário na Justiça. O processos estão tramitando. 
 
No campo financeiro, a asfixia também tem sido cruel. A estratégia, nesse caso, além de mais simples, tem efeitos mais imediatos. Bastou uma leve pressão para que os anunciantes do poder público, temendo sofrer represálias do governador, acharam melhor retirar as publicidades do jornal e cancelar os contratos. 
 
Mais impressionante é que a perseguição do governador não é exclusividade de Século Diário. Prefeitos e lideranças políticas que apoiaram Renato Casagrande nas eleições de 2014 também estão pagando um preço alto. O próprio Casagrande está na cabeça da “lista negra” de Hartung
 
A CPI dos Empenhos, toda maquinada pelo Palácio Anchieta, está sendo instrumentalizada para incluir Casagrande na lista dos indiciados. Se o plano funcionar, a CPI serve como pano de fundo para a reprovação das contas do ex-governador na Assembleia. A manobra é a bala de prata de Hartung para eliminar o rival das eleições de 2018 sem precisar enfrentá-lo nas urnas. 
 
Mas quando se pensava que Hartung não podia ir mais longe, ele foi. A nota publicada no jornal A Gazeta (Victor Hugo, 22/05/16) sobre a irritação do governador com a notícia de que Flávio Mingnone havia assumido a campanha do prefeito de Serra, Audifax Barcelos (Rede), candidato à reeleição, é inaceitável. 
 
É brutal a iniciativa de Hartung em tentar destruir a reputação de uma renomada profissional de comunicação que está apenas fazendo seu trabalho. Mais grave, o governador usou a imprensa para dar o recado ao mercado e a todos os prefeitos que cogitam contratar profissionais não “credenciados” pelo Palácio Anchieta nestas eleições. E o recado não serve apenas para os profissionais de comunicação, mas também para outras áreas de trabalho que eventualmente pensam em prestar serviços a palanques adversários de Hartung
 
O Paulo deste terceiro mandato é um predador pertinaz, disposto a caçar implacavelmente quem ousa desafiá-lo. Hartung, na sua obsessão, não tem mais adversários, mas inimigos. 

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