Ao se deparar com um discurso do governador Paulo Hartung (PMDB) deixa no interlocutor sempre a sensação de já ter ouvido aquilo em algum lugar. Seu texto é uma bricolagem, uma espécie de colagem de textos ou extra-textos.
Não é para menos, não é de hoje que Paulo Hartung assimila discursos disponíveis no mercado, sejam eles vindos das ruas, com as demandas da sociedade; de aliados, em busca de acomodação ou manutenção da harmonia, ou até mesmo de adversários para esvaziar seus palanques.
Isso ficou claro em 2002, quando disputou a eleição ao governo do Estado, com o ex-governador Max Mauro. Na época o discurso que agregava era o do combate ao crime organizado, bandeira levantada por Max Mauro ao federalizar os crimes cometidos pelo ex-delegado Cláudio Guerra.
Hartung vendo o sucesso desse tema, o tomou e modificou sua forma, transformando essa bandeira em sua, mas o crime organizado de Max Mauro era diferente do crime organizado que virou discurso de Hartung na reta final de sua campanha. Ele deu um ar político, dicotômico e maniqueísta à coisa.
Isso durou todos os dois mandatos, ao chegar ao governo em 2003, reuniu classe política, instituições e sociedade civil organizada, nessa cruzada contra o crime organizado. Algo indefinido, difuso e superficial que garantiu sua governabilidade, sem contestações. Afinal, quem não estava com ele estava contra esse combate ao crime organizado e fazia parte dele.
Este ano a coisa está diferente e a bricolagem de Hartung ainda mais sortida. Tem tema para todos os lados, mas nenhum deles tão consistente como o combate à corrupção. Como não tem a mesma força, não agrega e sem agregar não cria, o que Antônio Carlos Medeiros chama de capital simbólico.
Como colou muitos temas em sua montagem não consegue trazer à tona um que seja motivador e incontestável ao mesmo tempo. Com isso, a situação de Hartung fica complicada, já que ele terá quatro anos pela frente de um governo bem diferente daquele da unanimidade.

