Desde o mês passado, o governador Paulo Hartung (PMDB), que passou os três anos afirmando que o Estado estava quebrado, que era preciso cortar gastos,e que o capixaba teria que comer sal, decretou o fim da crise. Com a proximidade do início do processo eleitoral, coincidentemente, o governador anuncia, com otimismo, a melhora para 2018.
A narrativa do governador de mágica recuperação tem um elemento bem importante: a grama do vizinho. Hartung passou seu terceiro mandato reforçando seu discurso de excelência, usando como exemplo a situação do Rio de Janeiro. Agora ele mantém a comparação e acrescenta um outro fator de risco para o futuro do Estado: o Brasil.
“O Espírito Santo já saiu da crise. Nossa receita voltou a crescer. Nossos vizinhos estão tropeçando nas próprias pernas. A nossa pedra no caminho tem nome e sobrenome, é o Brasil e Brasília. Precisamos que o País também ache o seu caminho” , afirmou o governador, em visita ao norte do Estado.
A fala prepara o caminho para um discurso para fora e dentro. Depois de estreitadas suas possibilidades de articulação nacional, o governador tenta mostrar que pode contribuir nacionalmente, como também tem condições de gerir o Estado diante da grande pedra no caminho do Estado, que é o Brasil.
É a fala de quem fez o “dever de casa” e que se ofereceu para ajudar o País, mas como o País não quer, tem condições de melhorar a situação de seu eleitorado-base, o Espírito Santo. Da mesma forma que deu amplitude a um rombo, existente sim, mas não tão desesperador como colocado em sua campanha, agora quer criar a sensação de trabalho exemplar, mostrando o cofre no azul.
O discurso, porém, é perigoso. O superávit de R$ 1,2 bilhão já aguça parte da classe política. E se 2018 vai ser tão bom assim, a fila de cobradores na porta do Palácio Anchieta tende a crescer. O governador segurou o tradicional abono do funcionalismo, que também não teve reajuste, os prefeitos também estão com pires nas mãos, e os deputados estaduais com emendas para serem empenhadas.
O governador deu amplitude à crise, agora decretou seu fim. Terá que lidar em 2018 com a euforia criada e convencer o eleitor que tudo isso não foi uma artimanha política para que o governador do pequeno Espírito Santo tivesse assento no debate nacional.

