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O que parece o fim pode ser o começo

A vergonha, o medo, a insegurança. As noites mal dormidas, fruto da tensão e da pressão que ficam cada dia mais constantes. A incapacidade de compartilhar os problemas com a família, e maior ainda, de pedir ajuda pelo medo de receber não, geram desespero e afunilam mais e mais as “saídas” para pessoas com dificuldades financeiras.
 
Enroscados nessa teia que parece dia após dia ir sufocando, retirando a luz e aproximando o final do túnel, os endividados vão se isolando socialmente, se distanciando da vida, cortando suas raízes, e com isso adoecendo psicológica e fisicamente, além de financeiramente.
 
A depressão passa a fazer companhia diária. Do estresse vêm à alteração na pressão arterial, as dores de cabeça, a síndrome do pânico, os transtornos alimentares. Por outro lado, chegam também os conflitos familiares, o humor deprimido, a queda na concentração e na produtividade no trabalho, ameaçando a empregabilidade e aumentando ainda mais a depressão, a tensão, a pressão e o medo.
 
Para os autônomos, uma dívida pode representar a inviabilidade do negócio, a incapacidade de sanar, levando ameaça também ao seio familiar.
 
Nos últimos dias, a imprensa escrita e televisiva vem noticiando casos de assassinatos e suicídios cujo pano de fundo é o endividamento.
 
No Estado “dívida pode ter sido motivo de assassinato de taxista”; outro caso: “O crime teria como motivo uma dívida por tráfico de drogas”. Em São Paulo: “Uma família inteira envenenada”. O motivo foi escrito na parede: “Não fui capaz de cuidar da minha família”. Dívidas momentâneas, ceifando a vida de pessoas, abrupta e desnecessariamente.
 
Tudo é uma questão de tempo, empenho, abdicações, mas acima de tudo de união para promoverem juntos, não só a reversão da situação, como também a possibilidade de aprenderem a lidar com os recursos financeiros. Ah, esse aprendizado motivado pela dor é o que efetivamente faz a diferença.
 
Ouvem, aumentam e fazem críticas a políticos, aos alcoolistas, a pessoas que se “enrolam” financeiramente, mas quando passam de críticos a alvos das críticas, nem sempre aceitam e suportam.
 
Então que “não atire a primeira pedra, lembrando que todos os telhados são de vidro”.
 
O endividamento não deve e não pode ameaçar a vida de pessoas e famílias.
 
Em qualquer guerra, primeiro tem que ser traçada a estratégia, segundo, formar o seu exército, escolher as armas, depois adotar o planejado e lutar. Lutar o tempo que for necessário para vencer cada batalha. Nos casos de reversão do endividamento excessivo não é diferente. A guerra é contra as dívidas, o exército é formado pela família, as armas são o orçamento familiar, o levantamento de dívidas, o corte nos gastos, a adoção de novas fontes de renda e a concentração de esforços na luta, dure o tempo que for necessário. Sim, a família é o elo fundamental entre o problema e a solução deste, não devendo ser poupada em qualquer hipótese.
 
O que falta é crença, empenho, intenção de mudar hábitos, de reduzir o padrão de vida e de socializar a situação à família.
 
É possível reverter situações de endividamento, mesmo nos casos excessivos, de mudar comportamentos e assim virar o jogo, passando a jogar de forma diferente. Afirmação que descarta a necessidade de adotar atitudes impulsivas e extremistas.
 
É preciso diagnosticar e socializar a situação, estabelecer tratamento médico, medicamentoso, psicoterápico, individual e familiar e mudar os hábitos e atitudes em relação ao uso dos recursos financeiros, através da terapia financeira. E monitorar sempre. 
O que parece ser o fim pode ser o (re) começo.
 

Ivana Medeiros Zon é assistente social,  especialista em Saúde Pública e em Estratégia Saúde da Família. Autora do Projeto Saúde Financeira na família: uma abordagem social, com foco em educação financeira.

Fale com a autora, mande suas dúvidas para [email protected]

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