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O rei do blefe

Há dez dias, no início da ocupação da Assembleia por mais de 100 manifestantes que exigem a votação do projeto de decreto legislativo que propõe o fim da cobrança do pedágio na Terceira Ponte, o presidente da Casa, deputado Theodorico Ferraço (DEM), assumiu as negociações com o grupo. Embora fosse o dele o gabinete ocupado, Ferraço foi o primeiro a defender o caminho do diálogo para resolver o impasse. Foi mais longe. Num determinado momento chegou a pedir aos intolerantes que tratassem os manifestantes com mais “amor e carinho”. 
 
Para quem não o conhece muito bem, parecia até que Ferraço estava solidário ao protesto. Tanto que ele não economizou nas declarações à imprensa. Maliciosamente, deixou pairar no ar a dúvida de que estava inclinado a apoiar o projeto do deputado Euclério Sampaio (PDT), seu notório desafeto. 
 
Nas últimas horas, no entanto, Ferraço mostrou que tudo não passava de um blefe. Nesta quinta-feira (11), ele mesmo anunciou que a Mesa Diretora havia entrado na Justiça com o o pedido de reintegração de posse – como queriam os 15 deputados que lhe entregaram uma carta no início da semana pedindo providências mais enérgicas contra os ocupantes da Casa.
 
Aquela papel “paizão legal” já não lhe interessava mais. O verdadeiro Ferraço é ardiloso e não dá ponto sem nó. O presidente da Casa alegou traição para justificar a mudança repentina de posição. Disse que só estava recorrendo ao caminho da reintegração de posse porque os manifestantes haviam rompido o acordo. Segundo Ferraço, os manifestantes que ocupam a Assembleia já faz dez dias, haviam prometido deixar o prédio na manhã desta quinta (11), mas não o fizeram. Para justificar uma iminente ação truculenta por parte da polícia, que pode acontecer nas próximas horas, a Mesa Diretora aproveitou para lavar as mãos e se eximir de qualquer responsabilidade sobre uma ação desastrosa da PM.  
 
É claro que o motivo do rompimento do acordo foi imediatamente desmentido pelos manifestantes, que esclareceram que não assumiram acordo para desocupar o prédio. Ao contrário, o grupo reafirmou que só sai quando o projeto retornar à pauta de votação. Eles disseram ainda que se alguma das partes descumpriu o acordo, foi a Mesa Diretora. 
 
Nesse momento de tensão, caso o desfecho dessa ocupação acabe mal, ou seja, com cenas de violência, a responsabilidade é exclusivamente de Ferraço e dos membros da Mesa Diretora que negociaram com o movimento “Ocupa Ales”. 
 
Para quem já se esqueceu, o grupo de deputados, puxados por Ferraço, prometeu se empenhar para pôr o projeto em votação. Eles também pediram aos manifestantes que deixassem o gabinete da presidência da Assembleia e se mudassem para uma área não administrativa, como eles fizeram. A mudança, segundo os deputados, asseguraria a retomada dos trabalhos legislativos e a consequente votação do projeto. 
 
Os manifestantes honraram a parte deles no acordo, mas Ferraço e companhia não cumpriram com os compromissos firmados. 
 
O presidente da Assembleia mostrou, mais uma vez, que o blefe seco é uma de suas principais armas para lubridiar seus adversários. O episódio provou também que negociar com Ferraço nunca é um bom negócio.

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