O momento é de reconstrução, embora várias regiões do Espírito Santo ainda sofram com as águas que ficaram da impressionante temporada de chuvas de dezembro. Os sinais dos céus, revelados através do satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam que o verão chegou com muito sol, para alegrar nossos corações, secar nossas lágrimas e nos dar vitalidade para recomeçar de onde estamos.
Já falei da visita da presidente Dilma e quero registrar minhas observações sobre o governador Renato Casagrande: desde 1979, é o chefe de Executivo que melhor se posicionou em meio à tragédia. Atribuo isso à sua história de vida e política, diferenciada da maioria dos síndicos do Condomínio do Espírito Santo.
Lamentável, por outro lado, o notório despreparo revelado, finalmente, pelo chefe do Executivo do município onde vivo. Depois das desventuras da passagem “paga com carnê” para a Disney (direito dele, mas inoportuno para um político que se pretende governante da maior cidade capixaba, que naufraga nas águas que abrem o verão), ficou perdido e fez um monte de trapalhadas em relação à região alagada que jamais poderia estar habitada no município. Dispensa maiores comentários. Seus atos falam por si.
Um dia perguntaram a Rubem Braga se era verdade que a cidade onde ele nasceu, Cachoeiro de Itapemirim, era mesmo feia. Rubem, diplomata de carreira, respondeu com um efeito poético: nenhuma cidade cortada por um rio pode ser feia. Assim é Colatina, no Norte do Estado. Não bastasse a beleza de sua gente, uma mistura abençoada de negros e índios com sul-europeus, principalmente italianos, a cidade tem uma beleza própria, com suas elevações simulando as curvas do corpo feminino, que tanto agrada aos olhos, e o rio Doce correndo suavemente das Minas Gerais para o oceano.
Costumo sempre dizer que Colatina é um lugar de gente amiga, que respira uma tranquilidade incomum para uma cidade de seu tamanho. Das grandes cidades capixabas, é a que detém os menores índices de violência, principalmente crimes contra a vida. Sua economia é estável, sem grandes sobressaltos. Seu comércio diversificado, servindo de referência regional.
Há alguns desafios de soluções atrasadas, como a circulação de veículos e pessoas por uma única ponte ligando as duas margens do rio, na região mais adensada. Ponte que está por completar 100 anos e passa por sua primeira reforma estrutural, impedindo a passagem normal de veículos.
Chego de Colatina, onde fui passar o fim de semana com amigos que fiz muitos na cidade. E volto com um sentimento estranho: a cidade respira tristeza, devido à maior inundação provocada pelo rio Doce na história. Como nem tudo são tragédias, em 1979, data de outra grande enchente, a cidade ficou inundada vários dias. Desta vez, foi inundada num dia e no outro o rio já estava de volta ao seu leito.
Mas ficou um rastro de destruição assustador. Se o governo não abrir um crédito especial, a juros subsidiados, e prazo longo, vai demorar para a cidade se recuperar e, em alguns casos, há comerciantes que não conseguirão sobreviver à tragédia impressionante!
Fui oferecer ombro e levar uma palavra amiga a pessoas queridas, e as encontrei com o olhar fundo e perdido, como tentando entender o que havia acontecido. O cheio de barro podre é incômodo, os helicópteros cortam os ares a partir da base montada no estádio municipal, para socorrer pessoas ainda isoladas. Não há um única estrada vicinal que tenha escapado da fúria das águas.
Se em 1979 a enchente durou mais, entretanto, não houve mortes. Desta vez, as mortes passaram de dez. Os morros derreteram como calda de chocolate por toda a região. Onde havia ocupação, vieram as mortes. Uma lágrima quente desce em minha face. É por ti, Colatina!
José Caldas da Costa é jornalista, licenciado em Geografia. Contatos: [email protected]

