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O tripé

Veja bem, Papi, como mudaram as coisas. Cem anos depois (Vosmecê nasceu em 1911, certo?), nós nos tornamos prisioneiros do nosso sistema de vida É vero que carregamos as chaves da(s) nossa(s) cadeia(s), mas nunca foi tão grande a nossa (in)segurança.
 
Quando falo cadeia(s), refiro-me a nossa(s) casa(s), ao(s) nosso(s) escritórios, ao(s) banco(s) que guardam nosso dinheiro, às lojas que nos fornecem mercadorias e até aos carros que transportam nossos valores (materiais e morais, por que não reconhecer que tudo virou uma meleca só?).
 
Em cada esquina, em cada fachada há um segurança com um foninho enfiado no ouvido. Ele faz parte de uma rede de não se sabe mais quantos pontos.
 
Tudo isso fora as câmeras da rede Sorria, V. Está Sendo Filmado. Aliás, a maioria das câmeras de hoje está oculta. Perdeu a graça, né, Velho.  
 
Vê essa fiação quase invisível sobre as grades e os muros das fachadas e dos jardins? São fios energizados. Cercas elétricas. Estão em todo lugar para conter assaltantes.
 
Onde não cabem esses fios finíssimos, põem-se espirais tipo ouriço, bem mais assustadores.
 
Tudo isso – cercas elétricas, grades, muros – configura o aspecto mais transparente do esquema de defesa dos nossos três Pês: Patrimônio, Privacidade, Prosperidade. O que não é pouco.
 
Tem mais, Viejo, mucho más. Não se alarme se eu lhe disser que a antiga e respeitável lei do silêncio virou letra morta nas noites urbanas e rurais.
 
O mundo está poluído por ruídos desagradáveis, inoportunos, impertinentes e inconvenientes.
 
Como é mesmo o nome da ciência que estuda os sons? Acústica!
 
Pois essa digna senhora morreu eletrocutada por milhares de altofalantes de alta potência instalados em camionetas de suspensão rebaixada cujos motoristas percorrem as ruas divulgando a “curtura fanque”…
 
Veja se não lhe soa familiar: essa “cultura” exercita uma nova forma de egocentrismo temperado pelo modo fascista de ser. Ou, seja, se V. não gosta, Mano, se prepare pra levar porrada. Não tem um clima meio assim 1933?
 
Tem mais, Pater: a eletrônica e a informática (…não me peça para explicar o que vem a ser “isso”; eu lhe diria que são “inço”, e riríamos juntos enquanto pegaríamos nossas tralhas de caça e pesca) se uniram para fazer da mecânica, nossa velha conhecida, um trem muito doido.
 
Diante de tudo isso, fico me perguntando e até lhe peço conselho:
 
1 – se continuar morando em apartamento, devo instalar cerca elétrica  na sacada além de seguir usando chaves de segurança no portão externo, na porta do edifício e nas portas da residência?
 
2 – se mudar para uma casa, devo contratar uma empresa de segurança ou comprar uma cota do guarda-noturno da rua?
 
3 – se optar por uma moradia rural, quais as raças caninas mais adequada para defender meu tripé?
 
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Mais custa aprender um vício
 
Do que aprender a trabalhar”
 
José Hernandez (1834-1896) no poema Martin Fierro

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