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A série de reportagens publicada pelo jornal A Gazeta (5 e 6/12) sobre as ligações dos grupos de traficantes que atuam na Grande Vitória com um grande comando do crime organizado paulista parece ter surpreendido o secretário de Segurança André Garcia. 
 
Segundo a reportagem, a propósito, muita bem trabalhada, as informações sobre essa ligação foram confirmadas pelo Ministério Público Estadual, que estaria monitorando esses grupos criminosos há um bom tempo. 
 
Ao ler a reportagem, a sensação é de que os fatos narrados não são necessariamente uma grande novidade. Mesmo não conhecendo o cotidiano dessas comunidades, muita gente já deve ter ao menos ouvido falar que nessas zonas de conflito da Grande Vitória predomina uma “lei paralela” ditada pelos operadores do tráfico. Tribunal do crime, toque de recolher, medidas de coação a moradores, ações de cooptação para arregimentar jovens para as redes criminosas são alguns exemplos dos mecanismos de opressão aos quais essas comunidades estão sujeitas. 
 
Dizendo-se surpreso com o fato de grupos de traficantes locais serem sucursais de grandes organizações criminosas de São Paulo, o secretário afirmou nesta segunda-feira (5) à reportagem de A Gazeta, que irá pedir informações ao MPES sobre essa suposta ligação. 
 
Ora, que dizer que o comandante da Segurança é informado de fatos tão graves pela imprensa? À reportagem, o Ministério Público informa que os primeiros indícios de ligação entre os criminosos capixabas e paulistas tiveram início em 2006, ou seja, há mais de uma década. Só para lembrar, Garcia está no governo do Estado desde 2007, quando o então secretário Rodney Miranda, que retornava ao Estado depois de passar um período em Pernambuco, convidou o amigo para ser seu subsecretário. Isso quer dizer que ele já estava na Sesp quando surgiu a denúncia.
 
Se Garcia ignora os fatos, o promotor e a juíza que são ouvidos pela reportagem dão com riqueza de detalhes o modus operandi dessas organizações criminosas em 126 bairros de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica. A reportagem traz também um completa relato dos (ex) moradores dos bairros. Se era que o secretário também desconhecia essa situação de vulnerabilidade dos moradores?
 
Independentemente de Garcia confirmar a ligação entre os grupos criminosos, isso deixa de ser o mais importante neste momento. O secretário deveria primeiro admitir que o Estado está perdendo a guerra contra o crime organizado no Espírito Santo. Reconhecer que o crime só se organizou nessas comunidades porque o Estado foi ausente. Porque as organizações criminosas só se estabelecem onde o poder público fracassa. 
 
A queda sistemática dos índices de homicídios no Espírito Santo, tão comemorada pelo governo do Estado, tem de ser reconhecida, mas a sensação de violência continua presente na vida da população, sobretudo nas comunidades mais desfavorecidas, onde prevalece a “lei do cão”.

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