Não tem jeito, tem sempre alguém que chegou na frente, e na frente desse já tinha outro e outra antes dessa… a fila é inevitável. Não adianta acordar mais cedo, comprar com antecedência, aplicar na véspera, chegar muito antes de abrir ou pouco antes de fechar, aderir à moda online… a fila nos espera, e por alguma inexplicável disfunção no alinhamento astral, nunca somos o primeiro. A não ser que não tenha ninguém mais.
Tem coisa mais deprimente do que ficar horas numa fila, e não chegar mais ninguém depois? E nem é hora de fechar. Devia haver uma compensação monetária para quem enfrenta qualquer fila por mais de cinco minutos. “Seu tempo de espera será descontado do valor a pagar”. Há pouco tempo um restaurante lançou a ideia, “Dez minutos de espera, ou come de graça”. Fechou em menos de um mês, claro, pois mesmo nos famigerados fast-foods, tem sempre um chato que chega antes.
As filas de tráfego são incontornáveis, e deveriam ser descontadas na folha de pagamento. Digamos, ao assinar o contrato de trabalho, você estipula o tempo gasto no trajeto casa-trabalho / trabalho/casa. Não pode calcular por menos, ou eles empregam o segundo colocado, que foi mais exato. Diariamente, o tempo que ultrapassar sua estimativa será contado como tempo de serviço na ida, e hora extra na volta.
Como sempre acontece no Brasil, também para as filas existem leis que pegam ou não pegam – as rigorosamente seguidas e as rigorosamente ignoradas. Por exemplo, ninguém chega no caixa da farmácia e passa na frente de quem já está lá, mesmo que esteja menos doente. Se passar, leva bronca ou é mal atendido. Mas todo mundo fura fila de trânsito, indiferente ao fato de que o ultrapassado vai perder o sinal aberto. Outro dia o Marcos furou a fila no sinal e, ao chegar no escritório descobriu que era o chefe atrás dele.
Outra regra que ninguém respeita é da fila de estacionamento. Na tal fila para virar à esquerda no sinal, Marcos perdeu o emprego mas não sofreu danos físicos. O desrespeito às filas para estacionar, no entanto, tem provocado grandes conflitos e já fez correr muito sangue. Ou criado inimizades que se estendem pelas futuras gerações. Dizem que a rivalidade entre Capuletos e Montequios deveu-se na verdade a uma disputa por uma simples vaga de carruagem em frente da Porta Borsari, em Verona.
Tem ainda as regras de consciência. Chego no recinto e a pessoa na minha frente abre a porta e me deixa passar primeiro. Agradeço e corro para a longa fila já formada, vendo que a gentil pessoa vem para a mesma fila, ficando atrás de mim. Deixo que passe na minha frente e perco a chance de pegar o último ingresso? Ou o último desconto, disponível apenas para as cem primeiras clientes? Ou o último pão na cesta?
A única virtude das filas é serem democráticas, não discriminando sexo, idade, aparência física, cargo ou conta bancária – todo mundo enfrenta alguma vez na vida, mesmo onde dão preferência a idosos, gestantes, desnutridos, importantes, etc. Quem já foi lá conta que no céu não tem fila, mas duvido que seja por eficiência do sistema, mesmo sendo o paraíso. Aposto mais numa escassez de eleitos, pois do jeito que andam as coisas, a fila do inferno deve estar dando mais voltas que as filas da Disney nas férias do Brasil.

