É como se o Brasil (subitamente neoliberal conservador) tivesse se transformado num cassino em que os ocupantes das mesas fingem seguir as regras do jogo mas, na realidade, ficam fazendo artimanhas para levar vantagem e permanecer na ativa, embora todos sejam suspeitos de alguma trapaça.
Na distribuição das cartas, o subpresidente Michel Temer, gerente interino do cassino, dá força total ao gerente do caixa, que sente ter na mão vários coringas e, assim, poder gastar além dos limites do orçamento. É um perigo para o país ter um ministro-gastão e um risco para Temer ungir seu gerente como possível futuro sucessor, tal como aconteceu com o vice-presidente Itamar Franco e seu ministro Fernando Henrique Cardoso.
Mas é provável que Temer tema mais o paulista José Serra, a maior raposa do galinheiro do PSDB e que sempre teve um pé dentro do PMDB. Por isso, Temer mandou o eterno candidato Serra tomar conta das Relações Exteriores, ministério que o obriga a viajar constantemente. Assim ele não fica no Brasil jogando dados para se viabilizar como candidato. O risco é que em suas andanças pelo mundo Serra abra as portas para o capital estrangeiro se sentir mais perfeitamente à vontade no Brasil, inclusive na plataforma continental, onde há dez anos foram descobertas as jazidas de petróleo conhecidas como Pré-Sal. Pode parecer fácil tirar da jogada a Petrobras, fragilizada pela descoberta de uma corrente de propinas em contratos de alto valor, mas os nacionalistas permanecem vigilantes.
Os ocupantes da mesa principal jogam de olho no que acontece em outra mesa, onde o suspeitíssimo senador Renan Calheiros atua defensivamente, sempre disposto a reembaralhar as cartas, dando a impressão de que o placar foi zerado e tudo vai começar de novo. Enquanto isso, na Casa Civil, o ministro Eliseu Padilha trabalha sob um silêncio suspeitíssimo. O que andará tramando o ex-ministro dos Transportes de FHC e ex-ministro de Aviação Civil de Dilma?
Parecem bons jogadores o senador Renan e o subpresidente Temer, agora que Eduardo Cunha deixou de dar as cartas na Câmara. Ele sofreu uma cassação branca, igualando-se a Dilma, afastada da presidência num processo que terá seu desfecho entre julho e setembro.
As regras dos jogos são claras, mas só em alguns casos. Não fica bem o acusado Romero Jucá ser ministro, mas no Senado ele pode ficar. Cunha é suspeitíssimo e não convém que fique na presidência da Câmara, para se evitar que possa chegar à presidência da República, mas nada lhe acontece depois do seu afastamento pelo STF.
O único parlamentar punido até agora foi Delcído do Amaral, que perdeu o mandato de senador, aparentemente, por ser um moleque de recados de cabelos brancos.
Diante de tantas contradições, está virando moda falar mal do STF, que não tem unidade, parecendo um corpo heterogêneo composto por 11 individualidades que se anulam mutuamente na ânsia de exorbitar de seu poder. Segundo o ministro Marco Aurelio Mello, o STF só age quando provocado. Portanto, precisamos provocar o STF. Toma que ele aja para o lado certo.
LEMBRETE DE OCASIÃO
Justiça tem a ver com a busca da verdade. Lei trata do comércio com a mentira.
Millor Fernandes

