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Objeto de estimação

Era um casaco preto que com certeza conheceu  dias melhores. Mas continua na ativa, não apenas porque o dono não gosta de se desfazer do que tem, mas também por pura persistência. Do casaco, claro, que também se afeiçoou ao proprietário. Para desespero do filho, onde o dono vai o casaco preto vai também, embora tenha esgotado seu limite de vida útil e outros casacos já tenham sido presenteados para substituí-lo.
 
Com o excesso de uso e de lavagens, o casaco está em péssimo estado. O filho reclama, Esse casaco já devia ter sido doado para o Good Will. O dono finge que está surdo. De vez em quando um amigo vem com sugestões mais sutis – Estamos recolhendo roupas em bom estado para os desabrigados da África. Casaco preto, de frio, na África? O velho doa a camisa que ganhou do filho no último aniversário. Outro diz que está recolhendo casacos para os pobres de Dubai.  Pobres em Dubai?  
 
Seja doação para o Polo Norte ou o Saara, nada convence o dono do casaco preto a dele se desfazer. Coisa mesmo de apego emocional. O filho então resolveu dar um fim definitivo ao indesejado invólucro humano. O dono foi ao médico para exame de rotina, pois apesar da idade a saúde está de fazer inveja a jogador de futebol em início de carreira. Sem que o dono percebesse, na saída deixou o casaco cair do carro.
 
Só quando chegou em casa o dono deu pela falta de sua segunda pele. Imediatamente ligou para a clínica, e a atendente foi muito gentil – Procurei por toda parte, aqui não ficou. O dono ficou desolado, mas teve que aceitar a derrota. Seis meses depois voltou à mesma clínica, para os mesmos exames rotineiros, e voltou a insistir com a atendente, Tem certeza que não achou? Esqueci  aqui na minha última visita. A jovem é educada, Com certeza outro paciente pegou.
 
É uma bonita clínica, com estacionamento ajardinado e vista para um lago. Ao sair o dono percebe algo preto caído na margem, quase sendo levado pelas ondas formadas pelo vento … O filho ainda tenta demovê-lo, mas ele insiste, Vou ver o que é… Pois não era o casaco preto? Se já estava em mau estado, imagina depois de seis meses sob o sol inclemente e as chuvas constantes, aguentando poeira e lama!  Tinha marcas de pneus nas costas e na manga direita, e o fecho-ecler estava quebrado do lado esquerdo.
 
O filho do dono, fazendo as vezes de chofer, tentou impedi-lo de pegar o casaco, mas em vão. Lavando fica novo outra vez, teima o dono. Como assim, novo outra vez, se já estava velho antes de ficar seis meses ao relento? O casaco voltou para casa, para alegria do dono e desespero da família. Se já estava ruim, melhor é que não ficou, mesmo lavado e com o fecho trocado.
 
O filho não desiste,  e em um restaurante onde entraram uma única vez, deixou o casaco deslizar suavemente para baixo da mesa. O dono só deu pela falta alguns dias depois, e assim não conectou a perda do casaco ao restaurante em questão, onde entrou apenas naquela noite trágica. Procurou nos lugares frequentados habitualmente, e nada conseguindo de positivo, aceitou a derrota.
 
Pois não é que, meses depois… Pode parecer exagero, mas aconteceu. Voltando ao mesmo restaurante, lá vem o gerente gentilmente perguntar se por acaso… Se esquecesse um Ipad em baixo da mesa, o gerente teria guardado por vários meses e devolvido a um freguês que lá esteve uma única vez? O reencontro do dono e do casaco preto foi emocionante, de ambas as partes, e o filho teve que aceitar a derrota.

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