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Obrigado, a carapuça serviu

Definitivamente, com as justas exceções, a Assembleia Legislativa está muito longe de representar os interesses do povo. A reunião da última terça-feira (17) entre os deputados da Comissão de Representação (criada para acompanhar os desdobramentos da tragédia em Mariana, que assassinou o rio Doce e agora avança sobre oceano) com os diretores da Samarco (Vale/BHP Billinton) mostrou de que lado estão nossos parlamentares. 
A reportagem de Século Diário, que por um triz não ficou de fora da reunião, registrou imagens que revelam que a conversa com os representantes da Samarco não passava de uma grande encenação, montada no “palco” (gabinete) do presidente da Casa, Theodorico Ferraço (DEM).
Um vídeo publicado no último dia 19 por Século Diário, com os “Melhores Momentos” da reunião, causou mal-estar entre os membros da Comissão de Representação — pelo menos entre aqueles que estavam lá com a missão de blindar a Samarco. 
O vídeo, que ironiza a postura subserviente dos deputados ante a Samarco, foi alvo de uma nota do presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM) divulgada nessa terça-feira (24). O deputado não se refere textualmente a Século Diário. Nem precisava ser tão explícito. Afinal, que outro vídeo sobre a polêmica reunião registra mais de 50 mil acessos nas redes sociais — isso nos perfis que temos notícia (só no Capixaba da Gema são mais de 36 mil visualizações). 
Na nota-desabafo, Ferraço tenta desesperadamente salvar a pele dos colegas que foram expostos no vídeo defendendo a Samarco. Valendo-se do pretexto que a nota é uma satisfação à sociedade dos trabalhos da Assembleia no enfrentamento da tragédia do rio Doce, o deputado tenta desqualificar o vídeo feito pelo jornal. 
Para justificar o tom condescendente do seu discurso em relação à poluidora, o deputado afirma. ”Na minha vivência de mais de cinquenta anos como homem público, adquiri experiência suficiente para saber que o diálogo é o melhor caminho para se resolver os problemas que nos são postos”. Diálogo? Na reunião, entre outras pérolas, ele defende a volta da Samarco e chega a pedir proteção divina à mineradora.
Em seguida, acrescenta a nota, fazendo menção velada ao vídeo de Século Diário. “Estes [probemas] não serão resolvidos com a disseminação de vídeos criminosamente editados, para denegrir a imagem de deputados envolvidos, de corpo e alma, na busca de soluções que aliviem as dores e as angústias das pessoas que sofrem direta ou indiretamente os efeitos desta tragédia”.
Para separar o joio do trigo, ou seja, “o mau jornalismo do bom jornalismo”, Ferraço pondera. “Manifestamos nosso sincero respeito à imprensa solidária, isenta de objetivos escusos e políticos. Aquela que reconhece que o momento é de união de forças, não de instalação do caos do ‘quanto pior melhor’”.
Se a intenção de Ferraço e seus pares que defendem a Samarco em detrimento das vítimas da tragédia era mandar o recado velado para ver se a carapuça servia em Século Diário, avisamos que a carapuça serviu justinha. Perfeita.
Pela reação de alguns parlamentares, especialmente do presidente da Casa e da deputada Janete de Sá (PMN), parece que cumprimos nosso dever de informar. O vídeo, classificado como “criminoso” por Ferraço, simplesmente mostrou à opinião pública a promiscuidade na relação entre parte da classe política e as empresas poluidoras que operam no Estado. A tentativa de Ferraço em limpar a lama da Samarco da imagem dos colegas, os deixou ainda mais enlameados. 
Ficamos satisfeitos também que o deputado tenha nos separado da imprensa que ele considera “solidária”. Para Século Diário, sem falsa modéstia, a diferenciação é um elogio. É o reconhecimento de que estamos no caminho certo, fazendo um jornalismo alternativo, comprometido com os fatos.
O fato de Século Diário não ser reconhecido pelo deputado Ferraço como “solidário”, nos dá também um tremendo alívio. Porque, vindo de quem vem, sabemos que “solidário” é sinônimo de vendido. 

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