Vai ver, isso dá samba-enredo

Embora a política moderna esteja mais para tragédia grega do que o Bloco dos Sujos, é tempo de Carnaval e quem pode, pode, quem não pode também se sacode. Este ano vou fantasiar de Mamãe-eu-quero, mas quem não quer? Os carnavais de outrora eram dançados em cordões: os brincalhões faziam fila, mão na mão ou nos quadris, e foi daí que se originou o popular Cordão dos Puxa-saco, que continua se esticando mais que língua de palhaço, com ou sem tríduo momesco.
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Se o povo gosta, por que só três dias? De há muito o tríduo deixou de ser três: o autêntico carnaval do Zé Pereira começa antes e só termina nos dias sem-feira – o fim ou o começo depende da animação de cada um. Nos alegres carnavais de Alegre, então o melhor do sul e do resto do Estado, o Padre Pavezi excomungava os bailes pula-pula que terminavam com o sol brilhando no céu – já é quarta-feira de cinzas! Pecado capital, que a gente remediava rezando o terço de trás para frente.
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Este ano não vai ser igual aquele que passou, cantava a Colombina desiludida. Não é que o Pierrô se apaixonou pela Bailarina da Caixinha de Música? E teve o caso muito comentado daquele marido animado, que vestiu uma camisa listrada e saiu por aí. Em vez de tomar chá com torradas, ele bebeu parati. Parati, no caso, é a mãe da nossa popular cachaça, destilada na pitoresca Paraty pelos primeiros portugueses. Vai ver, isso dá samba-enredo.
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Há muitas teorias sobre os primórdios do Carnaval, mas não há dúvidas quanto ao resultado final: vingou na fértil terra brasilis, onde plantando tudo fica melhor e se tornou um lenitivo nacional, disputando com o futebol a preferência brasiliana. Páreo duro nessa passarela, mas o Carnaval leva a vantagem da unanimidade: todo mundo gosta de tudo, enquanto o futebol divide a nação. Mas não me leve a mal, tudo é Carnaval!
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Como as boas ideias são sempre plagiadas, a moda pega: o vizinho vestiu uma camisa amarela e saiu de pandeiro na mão e canivete no bolso. Nos dias de hoje seria logo interceptado nos detectores de metal, mas teve o bom-senso de botar fogo nela – na camisa, não na vizinha. Quem ainda se lembra da TV que chamavam de Máscara-negra? Qual veio primeiro, a TV ou a marchinha de Carnaval: na mesma máscara negra que esconde o seu rosto eu quero matar a saudade…quantos romances nasceram, quantos morreram nos carnavais da vida!
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Tal como a máscara de duas faces do teatro – a que ri e a que chora -, as marchinhas de Carnaval tinham também um lado triste e outro alegre, como “A camélia que caiu do galho”; Cadê Zazá, inspirada em uma mulher que desapareceu, de fato. Outras denunciavam dramas sociais, como a Lata d’água na cabeça. Ou farsas econômicas, como o golpe das filipetas, um esquema na venda de carros que deu prejuízo a muitos ingênuos. Como sempre, não deu em nada e quem comprou teve que se consolar cantando no Carnaval: Eu quero ver…quem é que tem automóvel para vender. Hoje nos vendem bitcoins, para tudo se acabar na sexta-feira.

