Este Paulo Hartung que vemos por aí não deve ser real. Deve ser um espectro, uma visão ou algo que o valha. Não fosse, a Justiça não estaria há mais de seis meses, sem sucesso, tentando “encontrá-lo”.
O oficial de Justiça que recebeu a incrédula missão começou a procurar o Paulo Hartung em dezembro do ano passado — cerca de dois meses após o mandado de citação ser expedido (outubro).
Os fatos que viraram ação vieram à tona durante a campanha eleitoral de 2014. Século Diário publicou uma reportagem sobre os gastos com viagens aéreas da primeira-dama Cristina Gomes, que também está sendo procurada. A mulher de Hartung teria viajado ao menos mais de quatro dezenas de vezes para São Paulo e Rio de Janeiro, em compromissos aparentemente particulares, à custa do dinheiro público.
Na ocasião, muita gente se indignou com a notícia, mas o estudante de Direito, Renato Aguiar Silva, não ficou só na indignação. Entrou com uma ação popular pedindo o ressarcimento dos supostos danos aos cofres públicos. Na denúncia inicial, o estudante sustenta que a mulher de Hartung não poderia receber os benefícios por não ocupar qualquer função pública. Ele pediu o ressarcimento de todas as despesas pagas com dinheiro público, avaliadas em R$ 83,7 mil, entre os anos de 2005 e 2010.
Para desqualificar a ação do estudante, o hoje governador teria que provar à Justiça que sua mulher não estava fazendo turismo com dinheiro público. Mas esses esclarecimentos só poderão ser feitos quando o casal for localizado pela Justiça.
Depois de tentar entregar a citação em dezembro, na consultoria Éconos, o oficial de Justiça descobriu que Hartung se desligara da sociedade. Vieram as festas de fim de ano, o recesso forense, a posse do governador e o assunto já iam caindo no esquecimento. Mas o autor da ação continuou pressionando a Justiça, cobrando uma solução para o impasse.
Numa nova tentativa, feita no último dia 9 — quase seis meses após a expedição da citação — o oficial foi ao endereço residencial do casal, em Vila Velha, mas descobriu que Hartung e Cristina teriam se mudado para um bairro nobre de Vitória. Endereço? Ninguém sabe.
A parte mais bizarra dessa história, porém, não se resume a essa “brincadeira” insana de gato e rato, mas a sugestão que a Justiça deu ao autor da ação para localizar o paradeiro do casal. Pasmem, a Justiça pediu que Renato Aguiar forneça o novo endereço residencial do casal. Isso mesmo, a Justiça quer que o autor da ação dê uma de detetive para descobrir o novo endereço do governador.
É por essas e outras que não dá para levar a Justiça a sério. Depois que a “indústria do dano moral” se instalou no Judiciário capixaba, diretores e repórteres de Século Diário chegam a ser notificados até duas vezes numa mesma semana pela Justiça. Para os mortais, e dependendo dos interesses que estão por trás da ação, a Justiça funciona numa velocidade espantosa.
É inadmissível que a Justiça demore mais de seis meses para entregar um mandado de citação a pessoas públicas. Fatos como esse desmoralizam a Justiça. Se a simples notificação já virou uma novela, imaginem um processo contra o casal.

