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‘Operação Mandacaru’ deixou espinhos

O protesto dos servidores públicos estaduais desta quarta-feira (9), na Praça do Papa, em Vitória, sem dúvida foi um dos mais representativos dos últimos anos, pelo grande número de entidades que congregou. O Fórum das Entidades dos Servidores Públicos do Espírito Santo (Fespes) conseguiu reunir 18 sindicatos em torno de uma pauta comum: problemas na saúde, na segurança, na educação, no abandono do interior do Estado, e da paralisação de obras. Os servidores reclamam, sobretudo, da política de austeridade do governo, que tem deixado o servidor à míngua.
 
Nas redes sociais, cada uma das entidades se encarregou de fazer a convocação para a assembleia geral unificada, que tinha a missão de definir nesta quarta as estratégias do movimento, que vem encontrando dificuldade para dialogar com o governo do Estado. 
 
Desde o início das articulações do ato, ficou claro que o alvo dos servidores é o governador Paulo Hartung (PMDB). A peça promocional do evento, para tentar transmitir o quão inóspita é a relação do funcionalismo com o Palácio Anchieta, ganhou a ilustração de um cacto com a mensagem: “Paulo, esse abraço eu não quero”, em contraponto ao slogan de campanha do então candidato, que pedia para a população “Abraçar o Paulo”. 
 
O ato desta quarta-feira talvez tenha reunido menos servidores do que as entidades do Fórum planejavam, já que os servidores falavam “em parar o Estado”. Números não oficiais dos sindicatos estimam que cerca 3 mil servidores marcaram presença no ápice do protesto.
 
Estatísticas à parte, um protesto que reúne 18 entidades sindicais, que faz duras críticas à política econômica do governo e que cogita convocar uma greve geral, caso as negociações com o Palácio Anchieta não avancem, não deveria ser tratado como notícia de pouca relevância pela imprensa. Mas foi exatamente isso que aconteceu. 
 
O portal Gazeta Online publicou a notícia por volta do meio-dia. O espaço na home exibia uma pequena foto, quase imperceptível, sobre o protesto. Até aí, tudo bem. É preciso respeitar a orientação editorial de cada veículo. Entretanto, chamou atenção que três horas depois a notícia simplesmente desapareceu da home. Estranhamente, a notícia também “sumiu” dos destaques da editoria de Cidades. Ficou segregada ao espaço “últimas notícias”, no rodapé de Cidades. 
 
No Folha Vitória, o tratamento editorial foi semelhante. O portal também não considerou a notícia relevante para ocupar a home do jornal eletrônico, tampouco deu destaque ao protesto na editoria de Geral. Assim como o portal Gazeta Online, a notícia também foi relegada ao espaço “últimas notícias”. 
 
Não nos cabe aqui fazer julgamento da linha editorial dos veículos citados. Não temos a pretensão nem a prepotência de nos colocarmos como “ombudsman” da imprensa capixaba. Cada um publica o que quer de acordo com os critérios editoriais de cada veículo.
 
Entretanto, quando juntamos as informações, as coisas começam a fazer sentido. Fontes sindicais, que não quiseram se identificar, relataram que a divulgação do material promocional do protesto foi dificultada desde o início. Tanto o spot veiculado na Rádio-CBN Vitória como a peça para TV, que entrou na TV Gazeta, foram negociadas diretamente com a Globo Rio de Janeiro. 
 
Segundo um sindicalista que participou das negociações, a TV Gazeta recusou a peça. O Jurídico da emissora teria sido contrário à veiculação. A peça original, de fato, convocava os servidores para o ato na Praça do Papa, mas a Globo Rio vetou apenas esse trecho, justificando que é política da empresa não permite divulgar o local do protesto. O restante do vídeo foi liberado. O sindicalista deixou claro que se o Fespes não fizesse a veiculação via Globo Rio, não teria conseguido divulgar a peça publicitária no rádio e na TV. 
 
Já com a empresa de outdoors o Fespes não teve a mesma sorte. Uma empresa de Vitória aceitou vender 30 outdoors para a campanha. Inclusive chegou a dar início ao trabalho de impressão, mas desistiu no meio do caminho. Os sindicalistas receberam a informação de que o empresário teria consultado o governo do Estado sobre o conteúdo dos outdoors antes de dar andamento no serviço. O Palácio Anchieta recomendou que a empresa recusasse o serviço. Foi o que aconteceu. Ou alguém viu os outdoors com cactos espalhados pelas ruas da Grande Vitória?
 
Esse é o governo Hartung dos velhos tempos. Um governo autoritário, que não sabe lidar com as demandas populares, avesso ao diálogo e que, em pleno século 21, acha que ainda pode manipular a informação para manter a população na ignorância.
 
Alguém precisa avisar ao governador que os tempos mudaram. Na manobra de abafa da “Operação Mandacaru”, os espinhos sobraram para Hartung.

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