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Oportunistas de ocasião

Em tempos de tragédia ambiental, os oportunistas de ocasião embarcaram, sem licença prévia, no centenário de nascimento de Augusto Ruschi. Nos últimos dias, eles têm feito moções efusivas ao naturalista, como se fossem identificados com a trajetória preservacionista pioneira do cientista, que foi reconhecido mundialmente como Patrono da Ecologia.
 
Quanta hipocrisia dessa gente. Se o naturalista estivesse vivo, muitas dessas pessoas que o enaltecem hoje, certamente seriam adversários declarados de Ruschi, por um simples motivo: os interesses que elas defendem são opostos ao de Ruschi. O naturalista, historicamente, sempre foi um defensor incondicional do meio ambiente, posição antagônica à dos arautos do desenvolvimento do Espírito Santo, que nunca se preocuparam com a sustentabilidade das nossas florestas tropicais, nossos rios, nossa fauna e flora. Ruschi alertou lá atrás que a opçào do Espírito Santo pelas grandes plantas industriais, que se instalaram no Estado especialmente a partir da década de 1960, teria um preço um preço incalculável para o meio ambiente e para a população. Por isso sempre lutou tão aguerrido para tentar evitar que caos fosse instalado no Estado.
 
Uma passagem da história registra fielmente como o naturalista era visto pelo poder público, empresários e a chamada grande imprensa capixaba. Ou seja, o conjunto que representava ( e representa) a elite capixaba,o via como um estorvo ao projeto desenvolvimentista do Espírito Santo. Em 1977, Elcio Alvares, então governador biônico da ditadura militar, ameaçava um dos redutos ecológicos mais sagrados para o naturalista. Ruschi passou algumas décadas de sua vida preservando e estudando a Reserva de Santa Lúcia, em Santa Teresa, região serrana do Estado. 
 
O governador biônico, porém, obstinado pelo desenvolvimento a qualquer custo, queria transformar a reserva numa fábrica de palmitos e extrair da própria reserva a iguaria. O empreendimento, sabia Ruschi, decretaria a morte da floresta, com suas milhares de árvores catalogados uma a uma e outras milhares de orquídeas das mais variadas espécies – um verdadeiro laboratório a céu aberto do cientista.

 

Ruschi não podia reagir diferente. Literalmente, montou guarda em frente a reserva e mandou os funcionários do governo darem um recado a Elcio Alvares: “Em defesa da natureza, sou capaz de matar ou morrer”. O naturalista sentenciou: ou Elcio revia sua decisão ou ele iria pessoalmente ao Palácio Anchieta para matá-lo, E quem conhecia Ruschi sabia que aquilo não era um blefe desesperado para tentar intimidar o governador da ditadura.
 
A queda de braço entre Elcio e Ruschi ganhou repercussão dentro e fora do país. A imprensa, não a local, é óbvio, mostrou a coragem de Ruschi na defesa incondicional do meio ambiente. Diante da repercussão do caso, o governador foi obrigado a recuar e o senhor dos beija-flores conseguiu salvar a reserva de Santa Lúcia.
 
O naturalista, que hoje é festejado, sempre foi visto como um obstáculo para os interesses das cabeças “desenvolvimentistas” do Estado, os homens que relegavam Ruschi à condição de inimigo do desenvolvimento, um anacrônico que não queria deixar o Espírito Santo crescer. Paulo Hartung, que sempre se orgulhou de ser um governador-empreendedor, era (e continua sendo) um desses “visionários do desenvolvimento”.
 
Aliás, ele é um desses “oportunistas de ocasião” que tentou tirar uma casquinha do centenário do naturalista. Na entrega do Prêmio Ecologia, essa semana, Hartung destacou que o período era de grandes marcos na área ambiental, e citou o centenário Ruschi. Em seguida, ironicamente, falou da sua preocupação com a crise hídrica e também destacou a tragédia do rio Doce, causada pelo rompimento da barragem da Samarco/Vale/BHP Billinton em Mariana (MG).
 
Ele exaltou o Prêmio Ecologia, mas deixou de falar que os patrocinadores do prêmio promovido pelo governo eram justamente a Samarco e a Vale. Apesar dos elogios a Ruschi, esse episódio, só para citar o mais recente, deixa claro de que lado Hartung estaria.
 
Se o naturalista estivesse vivo, certamente já teria recorrido à velha espingarda muitas outras vezes para deter os algozes do meio ambiente. Não por ser um homem violento, longe disso. Mas por ser um homem disposto a matar ou morrer para defender a natureza. 

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