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Os lobos e as ovelhas

Enganou-se redondamente quem começava a acreditar que o governador Paulo Hartung (PMDB) fincaria o pé do lado das vítimas da tragédia do rio Doce em detrimento dos interesses das empresas (Samarco/Vale/BHP) responsáveis pelo crime socioambiental que deixou um rastro de morte e destruição nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. 
Iludiu-se, da mesma forma, quem pensou que Hartung — ao agarrar na mão de Sebastião Salgado e pôr debaixo do braço o projeto do Instituto Terra para recuperação do rio Doce — estivesse realmente preocupado com a tragédia e disposto a tirar, se necessário, até o último centavo das empresas para reparar os incalculáveis danos socioambientais causados pela lama de rejeitos que desceu de Mariana (MG) no dia 5 de outubro de 2015.
O avanço das tratativas que se iniciaram esta semana entre as empresas e os governos federal e dos estados do Espírito Santo e Minas Gerais para a organização de um fundo de cerca de R$ 20 bilhões para gerir a tragédia, começou a jogar luz sobre as reais intenções do governador capixaba em patrocinar o projeto do Terra. 
Hartung iniciou seu lobby para emplacar José Armando Figueiredo Campos, seu nome preferido para gerir o fundo de direito privado que seria criado para recuperar o rio Doce, Mariana e demais comunidades afetadas pela lama de rejeitos da Samarco/Vale/BHP
Mas quem é José Armando Figueiredo Campos? Para quem ainda não sabe, ex-presidente da CST, depois ArcelorMittal (hoje conselheiro da mineradora), membro da ONG empresarial Espírito Santo em Ação, além de diretor do Instituto Terra. Ou seja, está tudo em casa. 
Primeiro Hartung endossa o projeto de Sebastião Salgado como a única saída para salvar, ou melhor, “ressuscitar”, como disse o premiado fotógrafo, o rio Doce. O governador, na primeira oportunidade que tem, entrega nas mãos da presidente Dilma o projeto de Salgado, prontinho. Afinal, Salgado que nasceu às margens do Doce, pressentia que rio, que já agonizava, mais dias menos dias, seria assassinado. 
No turbilhão da onda de lama que descia de Minas, Hartung, que já tinha relação com o fotógrafo, percebeu que associar-se à “grife” Salgado seria a estratégia mais eficiente para ganhar visibilidade positiva na tragédia sem precisar pressionar os representantes das empresas, com quem sempre teve relação próxima. Afinal, a movimentação de Hartung, ao endossar o projeto de Salgado, foi sempre para frente da tragédia. Uma estratégia bastante interessante para pôr uma pedra no que ficou pra trás. No sepultamento da tragédia, iria junto a remissão da Samarco
Agora que a proposta do fundo começa a ganhar contornos mais definidos, Hartung lança Armando Campos no grupo. Figura de confiança dele e de Salgado. Um executivo que tem o DNA das mineradoras nas veias. 
Com currículo respeitável na Vale e CST/Arcelor, Armando, sem sombra de dúvida, seria um nome muito bem-vindo entre os representantes da Samarco/Vale/BHP. Quem poderia melhor compreender a “escorregada” das mineradoras do que um homem que passou a maior parte da sua vida defendendo os interesses das poluidoras?
Armando, jogou bem Hartung, é o nome ideal para gerir o fundo. Salgado, com toda a certeza, que recebeu recentemente, pelo Terra quase R$ 7 milhões em insumos da Arcelor, também endossa o nome do executivo, que continua no conselho da mineradora. Não fosse homem da confiança de Salgado, não estaria na direção do Terra. 
Salgado e Hartung deixam claro que não existe qualquer conflito ético em mitigar danos ambientais com os autores dos crimes. Na direção do Instituto Terra há outros membros ligados à Arcelor e à Vale. Inclusive, a controladora da Samarco, ao lado da BHP, também faz doações para o Terra, e Salgado, logicamente, não vê problema nisso. Na lógica de Hartung e Salgado, o lobo é a espécie mais indicada para pastorar as ovelhas. 

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