Nessa quinta-feira (29), o deputado Cláudio Vereza fez a sustentação oral no Tribunal de Contas do Estado (TCE). O petista queria justificar aos conselheiros os motivos que o levaram a fazer alguns gastos, digamos, questionáveis, no período em que esteve à frente da presidência da Assembleia Legislativa — biênio 2003-2004.
O caso de Vereza é uma das pendências mais antigas do tribunal. Depois de 10 anos de seguidas barrigadas, não há mais barriga que empurre o caso do petista. Mas, na sessão dessa quinta, por conta da defesa oral, os conselheiros retiraram, pela enésima vez, o caso da pauta do pleno.
As denúncias contra o deputado são sérias, e envolvem ainda dois membros da Mesa Diretora à época: Paulo Folleto e Anselmo Tozi. O petista teria usado o dinheiro do contribuinte para pagar despesas ilegais de servidores. Na conta, entram cursos de pós-graduação (R$ 52 mil), multas de trânsito, gastos com viagem de parlamentar acima do teto (deputado José Tasso, no valor de R$ 3 mil) e até um inesquecível churrasco.
Só para o “regabofe”, que deve ter sido espetacular, o deputado destinou mais de R$ 16 mil. À média de R$ 35 o quilo, dava para comprar meia tonelada de picanha. Não se sabe quantos eram os convivas presentes na festa, mas carne não deve ter faltado.
O churrasco, inclusive, ganhou uma justificativa um tanto pitoresca do deputado: “Uma festa no dia do servidor é ou não objeto de gestão de uma Assembleia”, indagou Vereza aos conselheiros.
Antes de Vereza iniciar sua defesa, o conselheiro Domingos Augusto Taufner apontou pelo menos cinco irregularidades nas contas do petista. Além dos cursos, diárias, multas e do churrasco, o deputado ainda teve que dar explicações sobre um contrato, sem licitação, para manutenção, limpeza e cópias do Legislativo. Tudo pela “bagatela” de R$ 99 mil.
Apesar das aparentes irregularidades, Vereza achou explicação para tudo. Ele quis convencer os conselheiros de que os gastos devem ser analisados a partir do momento político que o Estado atravessava.
Para tentar justificar o injustificável, o deputado não pensou duas vezes em recorrer ao “causo da onça”. A dita cuja, sempre ela, símbolo do crime organizado, continuava rondando a Casa, mostrando seus dentes, causando pânico em todos. “Passamos de um período tenebroso da política capixaba para uma renovação”. Vereza já disse isso outras vezes, que se orgulha de fazer parte, junto com o ex-governador Paulo Hartung, do grupo que tirou o Estado das mãos do crime organizado e devolveu para a população capixaba.
Para quem não entendeu o recado dado aos conselheiros, Vereza quis dizer que esse clima “tenebroso” que pairava sobre deputados e servidores justificaria esses “pequenos gastos”. Na linha do velho bordão: “os fins justificam os meios”.
O caso de Vereza, que curiosamente foi retomado depois da tumultuada eleição do conselheiro Sérgio Borges, por uma questão de coerência, precisa ser tratado pelo tribunal com o máximo rigor. Não dá para o TCE, que se reconhece em processo de renovação, continuar protelando uma decisão sobre as contas de Vereza que se arrastam por mais de uma década no tribunal.
Se o tribunal quer mesmo enterrar de vez a alcunha do “faz de conta”, precisa dar uma resposta urgente à sociedade e decidir se Vereza e companhia devem ou não ser responsabilizados pelos gastos em questão.

