Já imaginou empreender um negócio no qual você começa a lucrar antes mesmo de começar a prestar o serviço? Os gurus do empreendedorismo vão dizer que um negócio só começa a “virar”, ou seja, dar de fato os primeiros lucros, em média, após dois anos de muita labuta e investimentos. Engano. O consórcio ECO 101, que ganhou a concessão para explorar os 476 km da rodovia federal que corta o Espírito Santo, está provando que não é bem assim.
O longínquo trajeto entre Touros (Rio Grande do Norte) e São José do Norte (Rio Grande do Sul), que corta 12 estados brasileiros, sempre foi repleto de acidentes. No trecho capixaba, como não podia ser diferente, as mortes também foram (e são) uma constante. No ano passado, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou uma média de 10 acidentes por dia, que deixaram um rastro de 140 mortes. Em 2012, o número de mortos passou de 180. Sem contar os feridos e sequelados, que carregaram as marcas da rodovia pelo resto de suas vidas.
Os altos índices de acidentes motivaram o governo federal a optar pela concessão das das BRs. O trecho capixaba, em função de um leilão conturbado que acabou na Justiça, atrasou. Depois de quase 18 meses de batalha judicial entre a empresa derrotada, o Consórcio Capixaba (formado por empresários do Espírito Santo que detêm a concessão da Terceira Ponte e ES-060), e a vencedora, Consórcio da Vitória, os dois grupos decidiram selar um acordo. De adversários, passaram a ser sócios neste e em outros negócios.
Com o imbróglio desenrolado na Justiça, os novos sócios passaram a exercer a concessão em abril de 2013. No próximo domingo (18), um ano após o início da concessão, os empresário começam a embolsar os primeiros reais do promissor negócio. O motorista que quiser cruzar o Estado de um extremo ao outro terá que desembolsar R$ 21,60 para vencer as sete imponentes praças de pedágio distribuídas estrategicamente na rodovia.
A questão não é a tarifa, mas o fato de a cobrança acontecer primeiro que as urgentes melhorias. A ECO 101 vai se apressar para dizer: “fizemos muitas melhorias neste primeiro ano”. Quem passar o olho pela rodovia vai perceber que ela está, digamos, mais “bonitinha”. Mas o que foi feito até agora, de fato, foi uma boa maquiagem. Trocaram placas, revitalizaram trevos, deram um “tapa” em alguns trechos de acostamento e fixaram olhos de gato, que à noite causam um efeito visual impressionante. A estrada fica parecida com uma pista de avião.
As obras realizadas são importantes? São. Não há dúvida. Mas duplicação que é bom (e custa caro), neca de pitibiriba. Não precisa ser especialista em trânsito para saber que os acidentes frontais em decorrência de ultrapassagens são os que mais matam. Por isso a urgência da duplicação.
Os empresários da ECO 101, porém, seguem na deles. Juram de pés juntos que estão cumprindo rigorosamente o contrato, que prevê a conclusão de metade da rodovia (cerca de 238 km) até 2019; e, a outra metade, mais precisamente 90% do trecho total da rodovia, até 2023, ou seja, até o décimo ano de concessão.
Cronograma à parte, a experiência deste primeiro ano mostra que os empresários estão mais preocupados em ganhar (muito) dinheiro com o negócio a se preocupar com a assustadora morbidade da rodovia. Parece romântico em demasia, mas se a mentalidade empresarial priorizasse a vida para, depois, pensar nos lucros, a duplicação, pelo menos dos trechos mais mortais, viria primeiro (ou concomitantemente) que as suntuosas praças de pedágio. Mais a ganância fala mais alto. Agora dá para entender por que os empresários se engalfinharam pela concessão da 101. Era mesmo um negócio imperdível.

