quinta-feira, abril 2, 2026
21.9 C
Vitória
quinta-feira, abril 2, 2026
quinta-feira, abril 2, 2026

Leia Também:

Para morrer basta estar

Muita gente boa tem saído de repente do mundo dos vivos sem dar tempo para que meditemos um pouco sobre o que cada um fez. Alguns partem sem nem dizer adeus, vítimas de mortes traiçoeiras, provocadas pelo coração. A quem fica resta apelar para que partam devagar, se possível acenando da janela do trem da eternidade, para que a gente não se sinta roubado ou traído. 
 
O último a partir foi Mylton Severiano da Silva, o Myltainho, ceifado por um infarto aos 73 anos, na primeira quinzena de maio. Nascido no interior paulista, fez parte da redação da revista mensal Realidade, que circulou de 1964 a 1982 e até hoje é citada como exemplo de bom jornalismo. De fato, hoje no Brasil não existe nada parecido com Realidade. Depois Myltainho trabalhou em redações de jornais ou revistas alternativos. Seu ultimo emprego foi na revista Caros Amigos. Escreveu um excelente livro-reportagem sobre as drogas. 
 
Em fevereiro morreu Eduardo Coutinho, 80 anos, o documentarista de cinema. Foi assassinato pelo filho esquizofrênico, numa tragédia que nem o roteirista mais louco poderia imaginar. Mais um dos anos 1930 que sai de cena.
 
Gilberto Amaro do Nascimento, o Giba-Giba, 70 anos, o maior percussionista do Sul, morreu em abril numa mesa de cirurgia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, onde buscou tratamento para um problema cardíaco. Foi sepultado com sua túnica branca, os óculos e uma touca tricotada de lã, depois de um velório recheado de batucada e cantoria. De tamborim a sopapo, de pandeiro a surdo, de bongô a bombo-leguero, ele tocava todos os instrumentos de couro identificados com a música de origem africana, incluindo o congo e o moçambique. Era um príncipe negro pleno de majestade e graça.
 
Renato Pompeu, o Renatão, 72, morreu exercendo até o último minuto a sua exemplar missão de jornalista. Seu último texto foi uma resenha sobre a obra literária da ex-primeira dama Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
 
Quem quiser conhecê-lo melhor deve acessar o Blog do Renatão ou procurar seus livros. Escreveu mais de 22. Era uma máquina de escrever. Um gênio solteirão que tinha dificuldades na gestão das coisas práticas da vida, mas sempre lutou para dar conta sozinho de suas coisas.
 
Fora sua impressionante competência como jornalista, o que ele tinha de mais admirável era a integridade pessoal, a fidelidade às suas ideias sobre o Homem e a luta incessante para não sucumbir à loucura. Ele se conhecia tão bem que escrevia com lucidez sobre suas próprias alucinações e os remédios que tomava (ver o livro “Memórias da Loucura”). Morou em clínicas onde se internava sozinho e, mesmo em tratamento, não deixava de trabalhar e o fazia sem perder o foco ou distorcer a realidade.
 
Renato Pompeu sabia tanto de medicamentos que, ao decidir abandonar o jornalismo no final dos anos 1990, virou dono de farmácia, aventura de pouca duração para quem nunca teve ambição comercial e, a rigor, era contra o capitalismo. Claro que voltou ao jornalismo, ofício que elevou à dimensão de arte ou sacerdócio. Mas foi como ficcionista que se deu melhor. Claro que sua ficção era totalmente calcada na realidade.
 
Para expressar suas ideias sobre a adesão do povo ao futebol, inventou o Espectro da Ponte Preta, uma preta velha que, segundo ele, ronda Campinas mudando a ordem das coisas (vide “A Saída do Primeiro Tempo”). Também escreveu um memorável ensaio sobre o carnaval chamado Samba-Enredo. Viveu quase anonimamente em São Paulo mas o tempo lhe fará justiça como grande escritor e extraordinário ser humano.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO 
 
“A ‘realidade’ cerceia constantemente o artista para impedir sua evasão. Quanta astúcia supõe a fuga genial!”
 
José Ortega Y Gasset

Mais Lidas