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Para ontem ou para sempre?

Se hoje todos vivem na pressão do “para ontem”, onde foi parar o “para sempre”? O casamento até que a morte os separe? Não mais, que a maioria acaba antes da data de validade estipulada no contrato.  As exceções são o tempero da vida, dizem os otimistas, e alguns casamentos ainda resistem ao embate de temperamentos e egos. Em novembro completei  54 anos de casada, e ao comentar o grande feito no trabalho, descubro: um estava casado há 66 anos e três viviam juntos há mais de 60.
 
O oposto é  o tempero da vida, dizem os pessimistas, e prolifera a categoria dos sem-casamento para sempre. Ou seja, namoros e noivados que se arrastam por anos – medo,  comodismo, indecisão?  Talvez apenas cautela, esperando a melhor hora ou a situação ideal – uma promoção ou um aumento de salário; ganhar a causa na justiça ou inventar a máquina de fazer dinheiro; morrer o parente rico e sem filhos ou cair o custo de vida… Seja qual for o motivo, o oposto do casamento para-ontem é o ficante para-sempre.
 
Para o Jamil, a questão é esperar a santa mãe, já velha e doente, deixar esse vale de lágrimas e ingressar no paraíso que tanto fez por merecer. Não que vá receber grande pecúlio ou a gorda pensão do falecido esposo, mas s santa mãezinha não dá o sinal verde para o casamento do filho, “Essa Carlota sei lá das quantas não merece o menino que criei  tão bem”. Verdade que o menino já passou dos 50, e nenhuma das candidatas anteriores a futura nora passou no teste de qualidade de Dona Santinha, que só o filho  não enxerga que de santa não tem nada.
 
Mais acomodada, Carlota vai apostando na lei natural, “Ninguém vive para sempre”. Só que a velha parece ter vindo do Planeta Klypton, e se beneficia da vida eterna. O romance camuflado do filho de Dona Santinha com a ‘ditadora' já se estica por 22 anos, e se tornou praxe, onde a  Carlota chega,  todos perguntam, “A velha morreu?” “Acho que morro eu primeiro”, responde Carlota, já duvidando da sorte de ver a sogra dentro de um caixão.
 
No mesmo prédio em que moram – a velha no térreo, Carlota no andar de cima, Jamil no elevador entre os dois, mora também a Rosa, que espera pacientemente o noivo, Bento, ganhar na loteria para se casarem. Professor de matemática em escola pública, Bento ganha pouco mas desenvolveu um esquema infalível para abocanhar uma acumulada. “São cálculos muito complexos, mas tá perto de conseguir”, diz Rosa, confiante nas aptidões do  noivo. Mais um noivado para sempre?  
 
Talvez não, que as reviravoltas do acaso são o tempero da vida, digo eu. Dona Santinha continua firme, mas Jamil se foi – caiu no poço do elevador. Bento finalmente acertou na loteria, embora com um bilhete fora de seu elaborado esquema. Não era um prêmio acumulado mas deu pra comprar um apartamento e se casarem.  Felizes para sempre? Quase, que em menos de um ano já estavam separados. Carlota mudou de endereço e D. Santinha não a perdoou para sempre, “Mesmo não sendo casada era minha nora e a tratei como  filha. A ingrata me abandonou. ”

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