Até outro dia, quando o Espírito Santo reinava absoluto na vice-liderança do ranking nacional de homicídios, as lideranças políticas procuravam guardar uma distância segura das estatísticas. Agora, com as taxas de assassinatos em queda, há uma briga de foice pela “paternidade da criança”.
Na entrevista publicada nessa segunda-feira (4) no jornal A Gazeta, o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS), com parcos resultados para apresentar à população sobre os três primeiros anos de sua gestão, apressou-se em contabilizar para si a queda dos índices de assassinatos na capital. Creditou a conquista ao incremento da Guarda Civil e às políticas sociais inclusivas que ele diz de implementado na cidade. Não teve nenhum constrangimento em festejar os números como sendo conquistas legítimas de sua gestão.
O governador Paulo Hartung (PMDB), por sua vez, dias antes, durante coletiva na qual fez o balanço do seu primeiro ano de governo, nem corou na hora de incluir no seu pacote de entregas, que por sinal foram pífias, a redução das taxas de homicídios como uma conquista exclusiva do seu governo.
É difícil dizer quem é mais cara de pau. Nos seus dois primeiros mandatos Hartung assistiu de camarote as taxas de homicídios explodirem. Ao lado do seu incompetente secretário de Segurança, Rodney Miranda, ambos foram corresponsáveis pelos piores resultados na área de Segurança dos últimos 30 anos. Entre 2003 a 2010, período referente aos dois mandatos do peemedebistas, mais de 14 mil pessoas foram assassinadas no Estado. Isso mesmo, 14 mil.
No auge desse verdadeiro genocídio, as taxas de homicídios no Estado chegaram a beirar 60 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes. Todos os dias, morriam em média cinco a seis pessoas no Espírito Santo. Taxa superior à de países que estão em guerra civil. À época, ninguém reconhecia a “paternidade da criança”. As poucas vezes em que foi obrigado a comentar o assunto, o então governador responsabilizava a falta de investimentos do governo federal e justificava que a violência era um problema nacional e não uma particularidade do Espírito Santo.
Hartung nunca assumiu que no seu governo houve cortes severos na área de Segurança. As policias Civil e Militar, além do Corpo de Bombeiros, foram sucateadas. Durante os oito anos do seu governo, praticamente não houve reposição dos efetivos. É consenso que segurança não se faz só com polícia, mas sem policiamento a população fica mais vulnerável à violência. Foi o que aconteceu naqueles oito sangrentos anos no Estado.
O pacto da unanimidade impediu que o sucessor Renato Casagrande (PSB) expusesse as mazelas herdadas do antecessor. O socialista engoliu a seco os problemas na área da segurança e tocou a bola pra frente em silêncio.
Aos poucos reaparelhou as policias, restabeleceu os efetivos e criou um programa, Estado Presente. Não era o melhor programa do mundo, mas pelo menos era uma iniciativa concreta para enfrentar a violência, já que o antecessor não criou um reles projeto para a área.
Após vencer a eleição e assumir seu terceiro mandato, Hartung fez justamente o inverso de Casagrande. Desconstruiu tudo que o socialista fez na Segurança e se apropriou dos resultados que, por ironia do destino, começaram a aparecer justamente em 2015.
Mesmo tendo feito cortes na área de Segurança em 2015, os dados positivos começaram a cair no colo de Hartung por inércia. Oportunista, ele agora reivindica pra si as conquistas, como se o secretário de Segurança André Garcia – que iniciou sua trajetória no segundo mandato do governo Hartung, atravessou o governo Casagrande e agora segue com o peemedebista – tivesse feito tudo sozinho, sem o apoio do então governador do PSB, que na verdade foi quem restruturou a politica de segurança.
O caso de Luciano Rezende é ainda mais absurdo. O prefeito alega ser um fiel aliado de Casagrande. Mas, ao enaltecer a queda dos índices de homicídios da capital – mesmo sabendo que Hartung apropriou-se ilegitimamente das conquistas do socialista -, Luciano não teve a hombridade de reivindicar os resultados para o dito “aliado”. Era a oportunidade que Luciano tinha de mostrar que é um homem de caráter e retribuir o apoio incondicional que tem recebido do ex-governador. Mas Luciano Rezende, na hora decisiva, mostrou que está preocupado em salvar a próprio pele.
Agora que os números são positivos, não faltam pais para a criança. Sinceramente, torcemos para que os índices de assassinatos continuem na descendente, mas se por acaso houver uma reviravolta nessas taxas, podem apostar que os entusiasmados pais virariam insensíveis desertores de uma hora pra outra.

